“Os jornalistas também foram homens sem sono no 25 de Abril”

Maria João Avillez, jornalista, viveu a revolução dos cravos na redacção dos jornais, conheceu como poucos Sá Carneiro, entrevistou várias vezes Álvaro Cunhal e colocou pela primeira vez perguntas intimistas ao homem que ninguém conhecia. Fez um trabalho monumental com Mário Soares no livro  “Soares: ditadura e revolução”. De Sá Carneiro refere ter a ideia que o seu sono era mau por causa dos problemas na coluna e sobre Mário Soares diz que  “nada tirava o sono ao dr. Soares, nem sequer a pátria”.

Penso que a Maria João Avillez trabalhava no jornal A Capital quando foi o 25 de Abril? Soube da notícia de madrugada? As noites seguintes foram de pouco sono? 

Nessa madrugada não estava no jornal mas numa quinta perto de Lisboa, no Oeste, onde por vezes também vivemos, a meias com Lisboa. O meu marido telefonou-me a acordar, dizendo “desta vez foi a sério”. O mais espantoso é que vivi esse dia sozinha com os meus filhos ainda muito pequenos. Não pude seguir logo para Lisboa porque as entradas na capital estavam incertas, nem ninguém me pode “visitar”. Segui só no dia seguinte. O meu 25 de Abril foi totalmente solitário.

E como foram os seus tempos de jornalismo no PREC, já no Expresso? Toda a gente dormia menos?

Foram tempos aparatosos, ruidosos, excitantes e excitados. Sem sono. Dizia-se que os homens do MFA eram os homens “sem sono”. Nós também. Os jornalistas do EXPRESSO, ou enfim alguns deles, pura e simplesmente dormiam muito pouco e às vezes, nada. Foram tempos inesquecíveis. Poucas coisas, para o bem e para o mal, se podem comparar com eles.

No Cerco à Assembleia Constituinte em Novembro de 1975 houve deputados que não pregaram olho. Sabe se os deputados do PCP, para além de terem comido frangos, tiveram oportunidade de dormir? 

Suspeito que todos os deputados devem ter cabeceado o seu bocadinho…Mesmo os comunistas.

Conheceu bem Sá Carneiro. Como era a relação dele com o sono?  

Tenho uma longínqua, vaguíssima, imprecisíssima ideia que era má. Ele tinha graves problemas de saúde, padecia da coluna, sofreu diversas intervenções cirúrgicas, era natural que tudo isto o afectasse e interferisse com o seu sono. Mas quem “mo” dera, mesmo a dormir.

E a de Álvaro Cunhal, a quem fez várias entrevistas. Sabe se tinha insónias ou dormia bem?

O dr.Cunhal era parco e avaro em falar de si, alimentando assim, de forma muito hábil, o seu próprio mito, á roda do qual havia um mistério que o PC servia com gozo e militância: quem era ele, no fundo? Onde vivia? Com quem? Quem amava? Tudo o que consegui um dia foi convidá-lo para vir ao cinema comigo, coisa que declinou horrorizado , e emprestar-lhe um vídeo de um programa de Herman José que ele não vira, desse tempo em que o Herman era um génio.

E Mário Soares? Dos três era o único que fazia sestas, aliás com ótimos resultados no campo político, como se viu no debate televisivo para as presidenciais de 1986, quando enfrentou Freitas do Amaral?

Nada tirava o sono ao dr. Soares, nem sequer a pátria. Dormia como um justo e sobretudo adormecia onde quer que fosse, estivesse só ou acompanhado, com ruído ou em silêncio, no carro ou no sofá, no gabinete ou nalgum concerto, onde incautamente o metiam…Adormecia nas viagens, adormecia quando se maçava ou simplesmente, por breves momentos, para se retemperar, entre duas reuniões, duas audiências, dois comícios. Vi-o fazer isso em inúmeras campanhas eleitorais.

Sabia mais de politica à noite na cama, a dormir, ou passando pelas brasas, no cadeirão da sua sala, que Freitas do Amaral, coitado, acordado, conforme aliás se viu nesse histórico debate televisivo. Aliás, quando por vezes visitava o dr.Soares cedo em sua casa para trabalhar,  para os jornais ou para dos livros que fiz com ele, não me lembro de o ver maldisposto ou ensonado de manhã. O dr. Soares acordava bem disposto para a vida e com a vida.

Hoje vivem-se tempos muito diferentes mas parece que os políticos continuam a dormir pouco e que não são muito sensíveis a comportamentos de higiene do sono. É preocupante que homens e mulheres que tomam decisões cruciais durmam pouco?

Mas às vezes não têm outro remédio senão decidirem em cima de poucas horas de sono! A vida politica é tão dura quanto exigente. Puxa pela mente, mas também pelo corpo. Não há ócios, prazeres, vida própria, caprichos, lazer.  Não faço parte desse grupo, certamente muito inteligente, muito “culto” e muito snob que acha os políticos “horríveis”, troça deles e exibe um audível desprezo pela classe politica. Pelo contrário, com algumas excepções, tenho respeito por ela.

O que pensa da expressão Deus não dorme?

Não sei o que penso, sei que a uso muitas vezes. No fundo uso-a, até quase automaticamente, quando ocorre algo que eu queria que acontecesse, temendo embora que não viesse a acontecer, ou quando subitamente tenho uma grata e inesperada surpresa. Espero ardentemente que no próximo dia 4 de Outubro, Deus não durma.

A literatura tem muitas referências ao sono e ao sonho. É um  mistério que os escritores gostam de retractar…   

É. E eu percebo-os muitíssimo bem. Não há nada de mais misterioso que os sonhos, um verdadeiro, um puro fascínio.

Qual a passagem literária que mais gosta referente ao sono e ao sonho? 

“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce…”. Haveria outras, tantas outras…

Já houve situações na sua vida pessoal em que o sono foi bom conselheiro? Em que medida a ajudou? 

É preciso perceber antes do mais que o sono é absolutamente indispensável, é um factor de saúde, equilíbrio, energia, bem estar.  Dormir bem é sempre meio caminho andado; ao contrario, não há nada mais cansativo, desgastante e nefasto que dormir mal. Os efeitos de um mau sono são devastadores. Cansa, diminui, estraga o sistema nervoso e envelhece qualquer um.

Adormece facilmente? É mais “coruja” ou “cotovia”? 

Adormeço muito bem mas são poucas as horas que durmo seguidas, o que é péssimo. Durmo quatro, cinco horas e acordo.  Depois é o cabo das Tormentas para pegar no sono outra vez. Tenho que me disciplinar para não desistir, isto é para não saltar da cama às seis da manhã ou para tomar uma coisa para dormir, o que abomino. Isto dito, sou diurna e nocturna, o que é um absoluto dom.  Adoro um bom serão, até às tantas e pélo-me pela manhã. Gosto de celebrar a manhã, sair cedo, mergulhar logo na vida. Acordo sempre com pressa de viver.

 

Comments are closed.