“Os sonhos parecem literatura em estado puro”

Teolinda 4

A escritora Teolinda Gersão, distinguida com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores e duas vezes vencedora dos Prémios de Ficção Pen Club diz que nunca “toma uma decisão importante sem ter dormido sobre ela” e que “infelizmente há muitas crianças a dormirem sete ou menos horas de sono”. Sobre os sonhos refere que “parecem literatura em estado puro”.

A literatura está cheia de referências ao sono, às perturbações do sono, aos sonhos…. Como as interpreta? 

O sono e o sonho são partes essenciais da  vida, a que em geral não damos a devida atenção. Mas a literatura tem um olhar mais fundo e dá conta de que nessas situações não estamos ausentes, mas, pelo contrário, a consciência continua a trabalhar. No sono e no sonho muitas coisas importantes acontecem. Não admira que a literatura se debruce sobre elas.

Proust descreve em quase 30 páginas a dificuldade de uma personagem em dormir…

As situações “diferentes”, alteradas ou até  patológicas, também interessam à literatura. O seu objecto é o ser humano,  em todos os seus estados.

No conto de Tchekov “Dormir, dormir” uma ama mata a criança para poder dormir…

No conto de Tchekov uma criadita de 13 anos serve um sapateiro e a mulher, que lhe dão ordens constantemente. Faz todo o tipo de serviço doméstico  e além disso é ama de um bébé, apanha pancada se se atrasa ou  adormece, e anda de tal maneira cansada que o seu único desejo é dormir. Esforça-se  o mais que pode por ficar acordada a embalar o bébé que chora de noite, enquanto os pais ressonam no quarto ao lado, mas o sono é tão forte que, mesmo sem querer, ela começa a sonhar e a alucinar,dividida entre querer manter-se acordada e a necessidade imperiosa de dormir. Resiste apesar de tudo, caindo de vez em quando num sono, ou num meio-sono, em que sonha ou alucina a sua própria história, a vida miserável dos pais, a morte do pai por falta de socorro médico a tempo.Trabalha a seguir, com enorme esforço, o dia inteiro, e na noite seguinte a privação de sono leva-a a um quase delírio em que o bébé lhe surge como o inimigo que  a impede de  viver, de respirar, de existir.  Alucinada, sufoca-o, numa espécie de sonho, para  finalmente poder dormir.

O que o conto narra é uma situação limite, de abuso de uma criança a quem os maus tratos levam a um estado de consciência alterado, que a tornam incapaz de tomar conta de outra criança. É a criadita que comete o crime? Sim, mas  num estado de exaustão que a leva a uma quase alucinação. O verdadeiro culpado é a sociedade  que a coloca numa situação que ela não pode fisicamente aguentar.

Outra das conclusões do texto é que a necessidade de dormir é imperiosa e leva o nosso inconsciente a fintar-nos, a enganar-nos, para nos “autorizar” a cair no sono.

Há teorias que defendem que os seres humanos por dormirem tiveram vantagens adaptativas ao longo da evolução, quer porque poupavam energias, quer porque corriam menos riscos de acidentes…

Não  posso falar dessa evolução a nível científico, porque não a conheço, mas creio que essas teorias  fazem  sentido. Todos os animais dormem, mas provavelmente o nosso sono é mais longo, mais complexo e profundo. Na verdade, não sei.

O mundo moderno faz com que muitas pessoas durmam cada vez menos. Estamos a desafiar perigosamente o nosso relógio biológico?

Acredito que sim. A começar pelas crianças, que não dormem o suficiente, pelo menos nos grandes centros urbanos. As escolas são longe, os transportes difíceis, os afazeres domésticos pesados, a vida dos pais também, e a hora de deitar vai ficando cada vez mais tardia, quando a hora de levantar se mantém a mesma. Sete horas de sono, às vezes menos, é habitual para muitas crianças. Infelizmente.

A que horas  gosta mais de escrever?

De manhã, ou então de noite, sem olhar para o relógio nem me preocupar em saber as horas. A tarde é menos produtiva, em geral ocupo-a com tarefas de rotina.

Acontece-lhe acordar a meio da noite ou já de manhã com uma ideia relacionada com a escrita? Costuma registá-la?

Creio que acontece a todos os escritores, e em geral registo de imediato a ideia ou o sonho. Se não registar, porque o desejo de continuar a dormir é muito forte e me “assegura” que não vou esquecer nada, quando acordo de vez verifico quase sempre que afinal esqueci. Mas por vezes a ideia ou o sonho foi tão forte que o recordo ao acordar de novo, mesmo sem o ter registado na altura, desde que tenha conseguido fixar uma palavra-chave, que ao acordar me remete para ele.

Já alguma vez contou carneiros? Ou ninguém conta carneiros?

Não faço ideia se há quem conte carneiros … Eu nunca contei, em geral não tenho dificuldade em adormecer.

Lembra-se de algum momento da sua vida em que o sono tenha sido bom conselheiro? Em que medida a ajudou?

O sono, o ditado popular refere-se ao travesseiro, é sempre bom conselheiro. Nunca tomo uma decisão importante sem ter dormido sobre ela uma noite ou várias, assim como nunca envio um texto que escrevi sem o reler no dia seguinte ou nos dias seguintes.

Segundo a lenda britânica o Rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda estão adormecidos numa caverna e acordarão quando a Grã-Bretanha precisar deles num momento de emergência nacional? É como o mito do nosso D. Sebastião que chega envolto em nevoeiro…?

Esse tema é recorrente em várias  literaturas, em diferentes formas e versões. Penso que no fundo o que essas lendas nos transmitem é que temos dentro de nós, guardada no inconsciente, uma qualquer sabedoria que, nos momentos de crise, se vai tornar consciente e nos ajudará a encontrar uma saída.

Mas a “salvação”, a nível individual como a nível colectivo, nunca vem de fora, somos nós que teremos de encontrá-la. Esse é o lado perigoso das lendas e dos mitos, quando levados em sentido demasiado real. D. Sebastião  nunca veio, nunca virá. Ninguém nos vai salvar de nada, a não ser nós próprios.

Freud disse que “o sonho é o fiel guardião da nossa saúde psíquica, da nossa alegria de viver, uma vez que a vida não passa de uma contínua procura do prazer, contrariada pela realidade”…     

Freud é muito pessimista… O princípio da realidade não é necessariamente o oposto do princípio do prazer, a realidade pode ser uma fonte de prazer, porque em parte a realidade de cada um é construída dia a dia por ele próprio. Claro que o prazer da vida real é no entanto relativo, encontra  obstáculos e  factores que não controlamos. Nos sonhos não há esses limites, não há fronteiras espaciais nem temporais, não há bem nem mal, “tudo” é possível. Mas isso não impede que os sonhos possam também ser pesadelos…

Por outro lado, penso que Freud tem razão quando diz que o sonho é o guardião da nossa saúde psíquica ( pode fornecer-nos grandes quantidades de energia) e da nossa alegria de viver . Isso parece-me no entanto igualmente verdadeiro em relação aos nossos sonhos do estado de vigília, isto é, no sentido de projectos, ideias, objectivos.

Há alguma história pessoal divertida de que se lembre relacionada com o sono?

Lembro-me de estar a dormir profundamente quando o despertador tocou, mas estava cansada e a última coisa que eu queria era acordar. Sabia que tinha de  levantar-me e fazer uma data de coisas, lutava por acordar sem conseguir e então sonhei que me levantava, vestia e  ia à minha vida, enquanto me voltava na cama para o outro lado e pensava, felicíssima: Ainda bem que “ela” já se foi embora. Agora “eu” posso continuar a dormir. Na verdade é uma situação semelhante à da criadita do conto de Tchekhov… Felizmente, no meu caso, o despertador tocou de novo 10 minutos depois, de contrário os alunos teriam ficado sem aula!!

Pode contar-nos um sonho ou pesadelo profundamente  fantasioso que tenha  tido?

Seria muito longo… A quem se interessar pelos meus sonhos — ou pelo que  escrevo num registo algo autobiográfico, mas heterodoxo, porque considero falsas as categorias do “eu” e do “tempo”, que caracterizam a diarística — sugiro que leia Os Guarda-Chuvas Cintilantes  e  As Águas Livres. Encontram lá sonhos e pesadelos reais. Como escrevi neste último livro, os sonhos sempre me interessaram desde muito jovem porque me pareciam literatura em estado puro. Muito antes de ter lido Freud, Jung ou qualquer outro autor.

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