“Parece que levei um século para fazer este percurso”

Uma visitante do iSleep enviou-nos o seu depoimento, em que conta e analisa  o seu sonho. Pode enviar o seu sonho mais estranho para publicação no iSleep. O mail de envio é info@isleep.pt

“Este sonho foi ocorrendo desde que tenho memórias da minha existência, entre os três e os quatro anos. Uma conversa com um psicólogo por volta dos meus 24 anos, deram sentido a esta ‘tortura’.

Estou presa num lugar escuro, num local onde não posso fazer movimentos. Como se estivesse enterrada. A posição é de barriga para baixo e cabeça projectada para a frente em busca de ar para respirar. Só posso fazer força para me arrastar para o exterior fazendo movimentos com os ombros e cabeça. Tudo o mais está preso. Sei que vou sufocar, faço uma força descomunal para atravessar essa passagem até uma claridade que vejo ao longe. Está tudo escuro, mas não tenho frio. Tenho a sensação de que tudo é muito lento. Luto dentro de mim, tenho cada vez menos ar, o coração bate muito depressa, tenho pouco tempo para chegar a essa claridade, estico o mais possível o pescoço, vou sufocar, vou respirar pela última vez, a tensão está no máximo, um último esforço desesperado e o ar entra nos meus pulmões quando atinjo a claridade. Parece que levei um século para fazer este percurso. Respiro. Esqueço que tenho um corpo, para além da cabeça. Estou exausta. Respiro. Preciso desesperadamente de aliviar a tensão que sinto. Respiro. Sei que estou na claridade. Respiro. Um cansaço extremo me invade e um alívio extraordinário. Respiro.

Acordava exausta deste sonho. Perturbava todo o meu dia. Tinha medo que o sonho se repetisse. Em criança tentei como pude e sem qualquer êxito, contar estes sonhos à minha mãe. Em adulta, a algumas pessoas. Sem êxito. 

Com maior ou menor frequência este sonho juntamente com outros pesadelos repetiam-se. Para não ser gozada ou apontada como um ser estranho, rapidamente percebi que não devia partilhar estes sonhos. 

Quando falei com o psicólogo, que procurei por várias razões, ele ouviu-me com atenção. Tive uma certa vergonha no início, mas depois confiei abertamente. 

Perguntou como tinha sido o meu nascimento. Socorri-me das descrições da minha mãe, que fazia questão de repetir exaustivamente (e até hoje com 92 anos), como o meu parto fora difícil, prematuro (diz que eu não ‘tinha’ o tempo…), em casa, só com parteira e que julgaram que eu não iria sobreviver tão amachucada ficara, sem movimentos para mamar ou mesmo força para emitir sons. Sem leite materno, recorreram ao leite de uma senhora que fora mãe recentemente. 

E até hoje, a minha mãe diz que quase morreu neste parto, ou noutro registo, que eu quase a matei. Com uma horrível sensação de culpa, cresci a ouvir esta estória, que tinha o seu clímax na véspera e no dia do meu aniversário ‘ai filha, quase me mataste’, repetido perante qualquer pessoa. Até hoje não gosto de festejar o meu aniversário e aviso as pessoas conhecidas para que evitem efusivos parabéns. 

A minha relação com minha mãe nunca foi boa. Por mais que me tenha esforçado, raramente fiz algo bem feito. 

A minha avó baptizou-me logo. Cinco anos mais tarde baptizaram-me outra vez… 

O psicólogo disse que os meus sonhos seriam memórias deste nascimento traumático. Tudo fez sentido para mim. 

Foi uma revelação, um alívio tremendo. A partir daí deixei de ter medo deste sonho e a sua frequência reduziu drasticamente. 

Para bem da minha sanidade mental”. 

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