“Partilhamos com a mosca da fruta um bom par de genes relógio”

Teresa Paiva escreveu um artigo no jornal “Público” sobre  o Dia Mundial do Sono que se assinalou a 16 de Março de 2018 e o tema que o marcou : os mecanismos moleculares que regulam os nossos ritmos biológicos. O Dia Mundial do Sono teve como lema: “Junte-se ao Mundo do Sono! Preserve os seus Ritmos e desfrute a Vida!

“Pensa-se que as bactérias azuis que viviam em charcos nos primórdios da vida na terra “perceberam” que se se multiplicassem durante o dia a multiplicação corria mal, e começaram a multiplicar-se só de noite, estabelecendo assim um ritmo circadiano ancestral. Este ritmo foi transmitido a seres vivos que surgiram subsequentemente e isso faz com que, hoje em dia, numa fantástica adaptação à vida na terra, bactérias, plantas e animais tenham ritmos circadianos, ou seja, ritmos com período de 24h, o tempo da rotação da terra em torno do seu eixo e da consequente alternância do dia e da noite.

Isto quer dizer que muitos seres vivos têm relógios biológicos, ou seja, mecanismos moleculares, genes relógio e circuitos humorais, hormonais ou neuronais capazes de medir o tempo de forma independente da alternância dia-noite, mas regulados por ela.

O sono vai aparecer na evolução da vida uns milhões de anos mais tarde, com os animais, e assim vamos passar da alternância repouso/atividade para o sono indiferenciado/vigília dos animais de sangue frio e para sono diferenciado (NREM e REM)/vigília dos animais de sangue quente.

Assim, para além do sistema sono/vigília temos um sistema circadiano bem complexo, mas que surgiu muito precocemente na evolução da vida. Por isso mesmo, a alteração, desrespeito e desorganização desse sistema tem consequências muito dramáticas, com grande aumento dos riscos de doenças tão terríveis como o cancro, a demência, a depressão e a insónia crónicas, a incapacidade para o trabalho e os acidentes graves.

Estas catástrofes humanas assemelham-se às catástrofes ambientais que se tornaram comuns nos dias de hoje e têm uma origem semelhante: o desrespeito pelos equilíbrios estabelecidos ao longo de milhares ou milhões de anos.

Efetivamente, nós partilhamos com a mosca da fruta um bom par de genes relógio e temos uma relojoaria complicada no nosso corpo com um relógio dominante, múltiplos relógios periféricos e genes relógio. O nosso corpo mede o tempo tão bem como os nossos relógios de pulso e funciona com e precisa de ritmos regulares.

Porém, as sociedades e os hábitos, que durante muitos séculos respeitavam os ciclos naturais, modificaram-se de forma substancial a partir do fim do século XIX. A capacidade de armazenar e produzir eletricidade em grande escala e a invenção da lâmpada, o desenvolvimento industrial e tecnológico, o controlo sobre a energia, a produção alimentar e as comunicações, os instrumentos de “high tech” ao alcance de todos, mudaram comportamentos e crenças em todas as idades.

Hoje em dia dorme-se pouco em todas as idades. Portugal exagera com médias de duração do sono, em estudos mais recentes, assustadoramente baixas e hábitos de sono dos mais tardios no mundo, associando-os, numa mistura explosiva, a hábitos matutinos ao começar tudo mais cedo”.

 

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