“Preocupa-me muito que os políticos tenham vidas frenéticas e durmam pouco”

Helena Matos

Helena Matos, investigadora, com obra publicada sobre o Estado Novo, colunista de vários jornais, consultora da série da RTP “Conta-me como foi” confessa-se preocupada por políticos e governantes fazerem gáudio das poucas horas que dormem. Sobre a revolução do 25 de Abril e o processo revolucionário que se lhe seguiu, refere  que “Os militares do PREC trouxeram para a vida política o hábito da vida castrense de dormirem pouco”.

É autora de livros sobre Salazar e o Estado Novo. Salazar era dado a surtos depressivos e dormia mal. Que reflexos terá tido no exercício das suas funções?

Acentuou-lhe certamente a misantropia.

Salazar andou uma vez de avião e pouco de barco mas enjoava com muita facilidade. Acha que era tudo uma questão nervosa?

Seria, mas note-se que na época os dirigentes não sofriam a  pressão de hoje para viajar, ir aos locais dos acidentes ou a cimeiras. Não sei se enjoar quando se viaja de barco é uma questão nervosa mas certamente que o hábito de viajar contraria a questão do enjoo, seja ela motivada por aquilo que for. E Salazar não precisou de ter esse hábito.

Se fosse possível entrevistar Salazar qual a primeira pergunta que lhe faria?

Não seria possível. As entrevistas só são possíveis com os nossos contemporâneos e, portanto, entrevistar Salazar não é apenas uma impossibilidade técnica mas também mental.

No PREC houve muitos homens sem sono. Terá contribuído para a vertigem política?

Mais do que homens sem sono eram homens que trouxeram para a vida política os hábitos da vida militar, para mais de uma vida militar marcada pelo estar longe da família, sem rotinas comuns. Reuniam toda a noite, no dia seguinte metiam-se num avião e iam reunir com alguém, depois passavam por casa para mudar de roupa, dormiam quatro horas e voltavam para uma assembleia à noite… 

Só um homem como Mário Soares consegue dormir uma sesta prolongada em vez de preparar os dossiers e mesmo assim ter prestações excelentes, como a do debate televisivo com Freitas do Amaral, na corrida presidencial de 1986?

A apreciação sobre a prestação televisiva de Mário Soares é subjectiva. Já o facto de fazer sestas é indiscutível e parece-me saudabilíssimo o acto de interromper o ritmo frenético de uma campanha para dormir um pouco. E não creio que se possa assacar às sestas o facto de não ter dominado alguns dossiers. Antes pelo contrário.

Preocupa-a que os políticos, face às decisões cruciais que tomam tenham vidas frenéticas e muitos deles afirmem que dormem muito pouco?

Preocupa. E muito.

O ex-ministro grego Yanis Varoufakis disse numa entrevista que era um alívio ter saído do governo porque esteve cinco meses a dormir duas horas por noite…

Não é possível governar desse modo. Apenas decidir na precipitação.

A Helena Matos é muito criticada na blogosfera em virtude do seu pensamento político. Às vezes tira-lhe o sono ou é para o lado que dorme melhor?

Se algo me tira o sono não é certamente esse tipo de comentários. As minhas queridas sete a oito horas de sono não são roubadas por adjectivos. Apenas por questões muito substantivas.

Foi consultora da série televisiva da RTP “Conta-me como foi”, muito elogiada pela recriação de cenários. Os quartos nos anos 1960 e 1970 eram muito diferentes dos quartos de hoje?

Para já a ideia de que, além do casal pai-mãe, cada membro da família tinha direito a um quarto não fazia parte dos adquiridos da época. Mesmo o facto de os filhos partilharem um quarto entre si não era equacionado em muitas famílias. Havia uma enorme falta de casas para alugar, muita gente vivia em barracas, partes de casa, quartos alugados… Havia muito colchão estendido à noite, muito divã atrás da porta, muito móvel de sala donde saía uma cama.

Tem trabalhos de investigação sobre as colónias portuguesas. A doença do sono estava erradicada de Angola em 1974. Foi um trabalho muito meritório dos médicos e investigadores portugueses…

Foi. É notável o esforço feito pelos técnicos portugueses no combate a essa doença e no estudo daqueles territórios. Creio que com o tempo perceberemos que esses descobrimentos não foram menos importantes que os outros.

Foi professora de Latim. O que pensa da expressão Dulcis est somnus operanti (Quem trabalha o dia inteiro acha mole o travesseiro)?

Creio ser muito mais acertado que o Somnus est frater mortis. (O sono é irmão da morte)

Antigamente o trabalho jornalístico era muito diferente em virtude dos meios e das comunicações mais difíceis. Como jornalista, teve muitas noites mal dormidas? Fez muitas directas?

É uma hipótese que não se me coloca: se não durmo não escrevo. Fico agoniada. As palavras não fluem. Posso dormir pouco mas directas só fiz em circunstâncias absolutamente excepcionais da minha vida. E nenhuma delas teve a ver com trabalho.

A literatura tem muitas referências ao sono e ao sonho. É um mistério que os escritores gostam de retratar?

Depende. Na verdade sendo eu de Literatura gosto mais do sono na fotografia. As imagens de alguém a dormir encerram um mistério terno.

Que passagem sobre o sono ou o sonho na literatura escolheria?

O adormecer e acordar de Henrique na Morgadinha dos Canaviais na primeira noite que passa na aldeia

E um quadro?

Já que falámos de sestas pode ser A sesta, de Van Gogh

O que pensa da expressão Deus não dorme?

Que mesmo que Deus não exista é indiscutível que não dorme.

Já houve situações na sua vida em que o sono foi bom conselheiro? Em que medida a ajudou?

Foi sempre bom conselheiro.

Adormece facilmente? É mais “coruja” ou “cotovia”?

Adormeço tão facilmente que não me lembro de adormecer. Acordo cedo e não percebo a expressão “Estou a acordar”. Acordo e pronto. Não sei se a cotovia será assim ou se serei mais galo da manhã. Mas ave nocturna é que não.

Lembra-se de alguma história pessoal ou profissional divertida envolvendo o sono ou a falta dele?

Faço parte daquele grupo de pessoas que se tem de beliscar para se manter acordada a partir das 23h 30m. Claro que há dias excepcionais mas aquelas pessoas que precisam da noite e de beber um copo para finalmente iniciarem uma conversa importante proporcionaram-me momentos embaraçosos. Porque não falam de manhã?

Pode contar-nos um sonho fantasioso que tenha tido?

Fantasioso não. Trabalhoso sim. Por causa do catálogo da Ikea: levei uma noite, ou pelo menos assim me pareceu, a organizar cozinhas. Acordei derreada.

 

 

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