“Quem está em jejum fala do sonho como se falasse ainda de dentro do sono”

O filósofo e ensaísta Walter Benjamin fala do sonho no seu livro “Imagens de Pensamento”: “Há uma tradição popular que nos diz que não se devem contar sonhos de manhã em jejum. De

fato, quem acorda continua, neste estado, ainda sob a ação do sortilégio do sonho. O que acontece é que a higiene matinal apenas desperta a superfície do corpo e as suas funções motoras visíveis, enquanto a indefinição crepuscular do estado onírico se mantém nas camadas mais profundas, mesmo durante as abluções matinais, e se reforça até na solidão da primeira hora de vigília. Aqueles que fogem ao contacto com o dia, seja por receio dos homens, seja por necessidade de concentração interior, não querem comer e não dão importância ao pequeno-almoço. Deste modo evitam a passagem brusca entre o mundo noturno e o diurno. Cuidados que apenas se justificam quando o sonho é queimado pelo trabalho matinal intenso, ou também pela oração, mas de outro modo leva a uma confusão dos ritmos de vida. Nesse sentido, o relato dos sonhos é fatal, porque o indivíduo, em parte ainda entregue ao universo onírico, o trai nas palavras que usa e tem de contar com a sua vingança.Em termos mais modernos : trai-se a si mesmo. Libertou-se da proteção da ingenuidade sonhadora e, ao tocar sem reflexão nas suas visões oníricas, expõe-se. Pois só da outra margem, em pleno dia, se deve interpelar o sonho a partir de uma recordação distanciada. A esse além do sonho só se pode chegar através de uma purificação análoga à da lavagem, mas totalmente diferente dela, pois passa pelo estômago. Quem está em jejum fala do sonho como se falasse ainda de dentro do sono”.

In Walter Benjamin, Imagens de Pensamento, Assírio & Alvim, Lisboa 2004

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