“Raramente sonhava senão quando estava com gripe”

Francisco José Viegas, escritor e editor, tem dois registos sobre o sono e os sonhos que envolvem o detective Jaime Ramos, a personagem já célebre do seu livro policial “Longe de Manaus”.   

“’Mas há  quanto tempo somos vizinhos?’ Silêncio. ‘Dez, onze anos?’

‘Catorze’ respondeu Jaime Ramos finalmente.

‘Isso. E há  doze que tenho a chave da tua casa, há doze anos que tens a minha. Dois andares não é nada, eu sei, e faz-te bem subir e descer as escadas, nem que seja a meio da noite’

‘Eu parei de ressonar.’

Ela riu e voltou o rosto para a janela, como se procurasse alguma coisa nos fios de chuva que brilhavam à luz do candeeiros.

‘Não. Eu é que disse que já não ressonas. Mas ressonas na mesma, e a tua cama faz os mesmos ruídos de sempre.’”

(…)

“Jaime Ramos raramente sonhava senão quando estava com gripe. E quando sonhava esquecia-se rapidamente dos assuntos, das imagens, dos rostos. São Paulo era uma cidade grande de mais para poder desperdiçar os seus sonhos”.

In, Francisco José Viegas, Longe de Manaus, Asa, Lisboa 2005

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