“Ressonas. Não soas exactamente a Bach”

Inês Pedrosa escreve sobre o sono no seu livro “Fazes-me Falta”, o seu maior êxito literário.

“O teu sono comove-me. Quem sou eu para me comover? A tua respiração na luz verde da madrugada. Abro incandescências nos teus sonhos – sempre os conheci melhor do que tu. Pelo menos acreditava neles – na tua capacidade de seres esse sonho de ti. A ti, falta-te Deus. O Deus coxo que me criou, esse Deus de que te rias demasiado. Pobre ateu aflito – perdoa a redundância. Ri-te, que Deus é riso – desde a explosão inicial do mundo ainda não parou de rir-Se  da Sua trapalhice.

Olha para ti. O corpo coberto de uma penugem branca. De perto pareces uma floresta queimada. Ressonas. Não soas exactamente a Bach. A boca escancarada, um fio de saliva molhando a almofada. Seis dentes brancos de plástico, mais uma infinidade deles chumbados a negro. A carne flácida em redor do umbigo, subindo e descendo ao som da música cava do teu sono. Os dedos amarelados pelos cigarros, os olhos  desaparecidos atrás do sono”.

in Inês Pedrosa, Fazes-me Falta, editora Dom Quixote

 

 

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