“Salazar chegou a estar 15 dias fechado no quarto”

 

Fernando Dacosta

Fernando Dacosta, jornalista, escritor, ensaísta, conheceu pessoalmente Salazar e tornou-se especialista no estudo do ditador. Refere ao isleep que este tinha problemas de sono e muitos surtos depressivos. “Chegou a estar 15 dias fechado no quarto” refere. Com uma longa carreira como jornalista, Dacosta fez a cobertura de vários acontecimentos, antes e depois do 25 de Abril. No PREC,  esteve sitiado na Assembleia Constituinte e lembra que os deputados comunistas recusaram alimentar um deputado do PPD doente que precisava de comer. Diz que o problema “é as noites serem curtas” e conta um episódio em que com o sono estava a escrever um artigo para o jornal sobre Mário Soares e acabou a escrever sobre o funeral de… Salazar.            

No 25 de Abril, Américo Tomás, Marcelo Caetano e muitos ministros do antigo regime não foram à cama ou não pregaram olho muitas horas? Recorreram a medicamentos para dormir?

Pelo que sei, dormiram pouco e mal, o que é compreensível nas suas circunstâncias.

Houve muitos homens sem sono após o 25 de Abril, em momentos políticos mais agitados… O sono esteve sempre em último lugar neste período?

Homens sem sono são perigosos e confusos, e manipuláveis, como se viu durante esse tempo. O resultado do PREC parece a evidência de que o sono estava em último lugar.  “Dormir bem é pensar bem”, dizia Agostinho da Silva, um homem que fazia religiosamente a sua sesta diária.

Vasco Gonçalves parece que fazia uns períodos de sono no meio de Conselhos de Ministros mais demorados…  

Mário Soares é que se tornou campeão nessa modalidade.

O Fernando Dacosta fez a cobertura jornalística do cerco à Assembleia Constituinte, em 12 de Novembro de 1975. Houve quem não pregasse olho? 

Ninguém pregou olho nessa noite, dada a gravidade e a imprevisibilidade da situação. Ao lado do Parlamento, na sua residência oficial, o primeiro ministro, almirante Pinheiro de Azevedo, encontrava-se igualmente sequestrado. Em Belém, o Presidente da República, general Costa Gomes, não tinha forças para intervir. Com a passagem das horas, a pouca comida existente nos bares acabou e os sitiantes não deixaram entrar reforços, com excepção dos deputados do PCP que recebiam frangos e bebidas.

De madrugada, o deputado do PPD, Olívio França, já idoso, homem da oposição ao Estado Novo, sentiu-se mal, pois necessitava de comer devido a uma grave doença. Então, a poetisa Sophia de Mello Breyner, deputada pelo PS, decidiu, com outros, ir ao gabinete dos comunistas pedir-lhes qualquer coisa para socorrer o doente. Não lhes deram nada e, já de madrugada, conseguiu-se negociar o seu transporte para um hospital.

Conheceu pessoalmente Salazar. Com que impressões ficou dele?

Um homem muito educado, frio, implacável, ao mesmo tempo inteligente, irónico, lúcido, grande conhecedor da natureza humana sobre a qual não tinha ilusões.

Também se tornou um estudioso e profundo conhecedor de Salazar e do antigo regime, com vários livros publicados. Salazar tinha problemas de sono e chegou a confessar que o seu “sono era medíocre”… 

O meu convívio com o presidente do Conselho de Ministros foi cordial mas profissional. Tive sim relacionamentos mais pormenorizados com a sua governanta, D. Maria de Jesus Caetano, por ser de uma terra próxima da da minha mãe. Ela contava-me dos problemas de sono dele, das dores de cabeça, das depressões, coisas de que sofreu sempre apesar de ser um indivíduo regrado, que não fumava, não abusava de café nem de vinho — era, no entanto, um bom apreciador deste, sobretudo do Dão e do Porto — levando uma vida austera, com horários e ritmos de trabalho regulares. Por vezes, porém, enfastiava-se de tudo, da política, dos deveres, dos outros, e refugiava-se no quarto, sem querer saber de nada. Chegou a estar 15 dias fechado. Ou então metia-se no carro e pedia ao motorista que o levasse “para longe disto tudo” – dos salazaristas, dos opositores, dos pides, dos militares, dos padres, dos subservientes  que detestava e manipulava cada vez com menos paciência e mais desprezo.

Era um homem com grande solidão…

Salazar era um homem muito só e muitíssimo triste, que se desumanizou, se amputou, que não gostava de si por não se permitir gostar de outros.

Depois de cair da cadeira e da operação cirúrgica, em 1969 e 1970, os problemas de saúde de Salazar agravaram-se muito… 

Que mania o ele ter caído da cadeira! Não caiu. Se os historiadores fizessem o trabalho de casa que eu fiz, sabiam, como eu relatei pormenorizadamente no livro Máscaras de Salazar, que ele estava de pé no terraço do forte de Santo António do Estoril quando o barbeiro, e não o calista, chegou e lhe deu O Século para ler. Como era muito distraído, não reparou que a tal cadeira não se encontrava no sítio habitual. Pensando sentar-se nela, estatelou-se no granito das lajes fazendo um hematoma no lado direito da cabeça. Basta reparar que a cadeira, uma espreguiçadeira com 30 cm de altura não provocaria hematomas a ninguém que tombasse dela. Para quê a insistência em tal disparate? Franco Nogueira iria corrigir essa versão na segunda edição da sua biografia de Salazar.

Salazar tomou consciência perfeita que já não era Presidente do Conselho e que Marcelo Caetano o substituíra? 

Claro que tomou.  As fases de inconsciência alternavam-se com as de lucidez. Como percebeu que estava doente esperou que o seu estado evoluísse. Franco Nogueira, que não era muito sensível, não percebeu isso, mas a sua mulher, sim.

O Fernando Dacosta nasceu em Angola. A doença do sono estava irradicada da então colónia portuguesa em 1974 mas após a independência regressou com força…

Angola foi destruída por guerras civis, regredindo dramaticamente.

Antigamente as horas de fecho do jornal implicavam grandes noitadas. O próprio trabalho de reportagem era muito diferente porque as comunicações eram muito mais difíceis. Teve muitas noites mal dormidas? Fez muitas directas?  

Claro. Trabalhei em matutinos que fechavam às duas, três e mais da madrugada. A boémia nocturna era então um fascínio.

A literatura tem muitas referências ao sono e ao sonho. É um  mistério que os escritores gostam de retratar…

Todos os mistérios são “motivo de criação”.

Costuma levantar-se de noite para registar uma ideia?

Não. Se a ideia for boa ela ressurge de manhã.

O que pensa da expressão Deus não dorme?

Atendendo à beleza do mundo que Ele criou, deve ser verdade.

Já houve situações na sua vida pessoal em que o sono fosse bom conselheiro? Em que medida o ajudou?

Foi sempre bom conselheiro. Quando tenho problemas complicados durmo e eles descomplicam-se.

Adormece facilmente? É mais “coruja” ou “cotovia”? 

O meu problema é as noites serem tão curtas.

Lembra-se de alguma história pessoal divertida envolvendo o sono ou a falta dele?

Certa vez estava a escrever uma crónica sobre um comício de Mário Soares. Eram cinco da madrugada e adormeci sobre a máquina, ainda não havia computadores, continuando a teclar. Escrevia, porém, não sobre o comício do candidato à Presidência da República, mas sobre o funeral de Salazar, com que me pusera a sonhar. Acordei e não me apercebi de nada, pois não reli nada, ninguém na Redacção releu nada. Valeu-me o desk que me salvou da tremenda embrulhada.

 

 

 

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