Sancho Pança: “bem haja o que inventou o sono”

TPG108073 Portrait of Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1615) by Jauregui y Aguilar, Juan de (c.1566-1641); Private Collection; Spanish,  out of copyright

“Satisfez D. Quixote a natureza dormindo o primeiro sono, sem dar tempo ao segundo; pelo contrário, Sancho nunca teve segundo porque lhe durava o sono desde a noite até à manhã, no que revelava a sua boa compleição e as suas poucas preocupações. As de D. Quixote mantiveram-no acordado de modo que acordou Sancho e disse-lhe:

— Pasmado estou, Sancho, com teu feitio impassível: imagino que és feito de mármore ou de duro bronze, em que não cabe nenhuma inquietação nem nenhum sentimento. Eu velo quando dormes; eu choro quando cantas; eu desmaio por não ter comido quando tu estás mole e mal podes respirar de tão farto. É próprio dos bons criados ajudar a suportar as aflições dos seus senhores e sentir os seus sofrimentos, pelo menos porque parece bem. Olha a serenidade desta noite, a solidão em que estamos, que nos convida a meter pelo meio alguma vigília no nosso sonho. Levanta-te, por tua vida, e afasta-te daqui a uns passos, e com boa vontade e coragem agradecida dá em ti mesmo trezentos ou quatrocentos açoites por conta dos do desencantamento de Dulcineia; e ao rogar-te isto, suplico-te, pois não quero sentir a força dos teus braços como na outra vez, porque sei que os tens pesados. Depois de os teres dado, passaremos o que resta da noite a cantar, eu a minha ausência e tu a tua constância, dando desde agora início à ocupação pastoril que havemos de ter na nossa aldeia.

— Senhor – respondeu Sancho – não sou frade, para que a meio do meu sono me levante e suplicie, e menos suponho que do máximo da dor dos açoites se possa passar ao da música. Deixe-me vossa mercê dormir e não insista comigo para eu me açoitar, que me obrigará a fazer um juramento de não me tocar nunca num pêlo do meu saio, muito menos das minhas carnes.

— Oh alma endurecida! Oh escudeiro sem piedade! Oh grande ingrato e as mercês mal consideradas que te fiz e tenciono fazer-te! Por mim viste-te governador e por mim vês-te com esperanças de em breve seres conde, ou ter outro título equivalente, e não demorará para que eles se cumpram mais do que demore este ano, pois eu post tenebras spero lucem (após as trevas espero a luz).

— Não entendo isso – replicou Sancho –; só entendo que enquanto estou a dormir não tenho temor nem esperança, nem trabalho nem glória; e bem haja o que inventou o sono, capa que cobre todos todos os humanos pensamentos, iguaria que tira a fome, água que afugenta a sede, fogo que aquece o frio, frio que suaviza o ardor, e, finalmente, moeda geral com que todas as coisas se compram, balança e peso que iguala o pastor ao rei, e o ingénuo ao sagaz. Só uma coisa o sono tem má, segundo tenho ouvido dizer, e é que se parece com a morte, pois entre um adormecido e um morto há muito pouca diferença.”

In O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha, Miguel de Cervantes, Relógio D’ Água, 2005

 

 

 

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