O tempo do sonho em Borges

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“Muito sensível a plantas, cuja modesta vida silenciosa era afinal a sua vida, cultivava no seu quarto umas begónias e mexia nas folhas que não via. Até 1929, ano em que se fechou no seu permanente dormitar, contava acontecimentos históricos sempre com as mesmas palavras e pela mesma ordem, como se fosse o pai-nosso, e suspeitei de que já não correspondiam a imagens. Tanto lhe dava comer uma coisa como outra. Em suma: era feliz.
Dormir, como se sabe, é o mais secreto dos nossos actos. Dedicamos-lhe uma terça parte da vida e não o compreendemos. Para uns não passa de um mero eclipse na nossa vigília, para outros é um estado mais complexo que abrange, ao mesmo tempo, o ontem, o hoje e o amanhã. Para outros ainda, é uma não interrompida série de sonhos. Dizer que a senhora de Jáuregui passou dez anos num caos tranquilo é porventura um erro. Cada instante desses dez anos pode ter sido um puro presente sem antes nem depois. Não nos maravilhemos demasiado desse presente que contamos por dias e por noites e pelos centenares de folhas de muitos calendários e por ansiedades e factos: é o que atravessamos cada manhã antes de acordarmos e cada noite antes do sonho. Todos os dias somos duas vezes aquela velha senhora.”

Jorge Luis Borges, A Velha Senhora, in O Relatório de Brodie, Jorge Luis Borges,
Obras Completas
, II. vol., Editorial Teorema.

 

Jorge Luis Borges, para quem “a memória é o essencial, visto que a literatura está feita de sonhos e os sonhos fazem-se combinando recordações”, escreveu extensamente sobre o sono e o sonho, chegando a compilar num volume os mais diversos relatos desse “género literário”, desde os sonhos proféticos do Oriente às puras diversões labirínticas de Lewis Carrol e Kafka.

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