Teresa Paiva diz que mulheres dormem pior

A neurologista e especialista do sono falou ao jornal Correio da Manhã sobre o sono das mulheres e a relação entre a privação do sono e a violência e esta e algumas perturbações do sono.  

Teresa Paiva considera que as mulheres dormem pior porque são “biologicamente mais complexas”.  A mulher passa pela primeira menstruação, depois por vários ciclos menstruais, a seguir pela gravidez, o pós-parto e por último pela menopausa.

Também “têm mais desafios sociais, são mais vítimas de violência e de agressões culturais”, acrescenta.

As mulheres podem reagir pior à privação do sono.  “Sabe-se que no pós-parto, quando as mães estão em privação de sono, muitas vezes têm umas ideias de agressividade em relação ao bebé”, diz Teresa Paiva.

Há uma explicação científica para este fenómeno: quando há privação de sono, a zona das decisões morais, no córtex pré-frontal, fica particularmente afetada e a probabilidade de a pessoa ficar mais irritável é maior. “As pessoas nestas circunstâncias têm mais comportamentos de risco e comportamentos violentos”, explica a neurologista.

A especialista discorda que a mulher tenha mais tolerância à privação do sono. “ A mulher tem mais consciência dos riscos que corre” mas não quer dizer que aguente mais tempo sem dormir.

Sobre algumas modas que pressionam as mulheres, como os saltos altos, Teresa Paiva considera que “andar com o pé quase na vertical estraga as costas e os pés, e dá dores”. E uma das causas da insónia é a dor crónica e, mais particularmente, as dores na coluna.

Teresa Paiva falou ainda sobre a relação entre a violência e a privação do sono a propósito de um estudo realizado sobre os hábitos dos adolescentes portugueses,  publicado em 2015 no International Journal of Psychology, em que que 37,5% tinham problemas de sono e 18% estão privados de sono. “Todas as crianças que tinham privação de sono apresentavam maior probabilidade de ter comportamentos de risco, como hábitos sexuais mais precoces, consumos de álcool e drogas e atitudes violentas na escola”, refere a médica, que foi uma das autoras do estudo.


Por sua vez a violência também causa problemas de sono. “Quando as vítimas de um crime sofrem de stress agudo ou pós-traumático, uma das consequências é a insónia e pesadelos. Mas as vítimas passivas, por exemplo crianças que assistem a um filme violento ou os habitantes de uma zona onde houve um crime, também podem ter problemas de sono”, diz Teresa Paiva.

E há perturbações de sono que têm intrínsecos comportamentos violentos. “Outra faceta importante é que durante o sono pode haver comportamentos violentos”, explica. Em doenças como o sonambulismo, distúrbios comportamentais do sono REM – “em que a pessoa sonha, por exemplo, que está a ser atacada por um leão e começa a bater em quem está ao lado”, descreve – ou em epilepsias nocturnas, há muitas vezes comportamentos violentos não intencionais. “Sigo bastantes casos destes. Por exemplo, nas crises de epilepsia, o que pode acontecer é que a pessoa levanta-se e parte um armário, ou parte um vidro e corta-se. São coisas muito violentas”, descreve. “Felizmente, têm tratamento.”

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