Um pesadelo de J.M. Coetzee

O escritor sul-africano J.M. Coetzee, Prémio Nobel da Literatura, conta um pesadelo que teve no livro “Diário de um mau ano”, editado pela Dom Quixote.

“Tinha morrido, mas ainda não deixara o mundo. Estava na companhia de uma mulher, um dos vivos, mais nova do que eu, que estava comigo quando eu morrera  e compreendia o que me estava a acontecer. Ela fazia os possíveis por atenuar o impacto da morte, ao mesmo tempo que me protegia de outras pessoas, pessoas que não gostavam de mim tal como eu me tornara e queriam que eu partisse de imediato.

Apesar da sua protecção, esta jovem não me mentia. Também ela deixava claro que eu não podia ficar; e de facto eu sabia que o meu tempo era reduzido, que tinha um ou dois dias, no máximo, que não havia protestos nem choros nem apegos capazes de alterar isso.

No sonho eu vivia o primeiro dia da minha morte, de ouvido atento em busca de sinais de que o meu corpo estava a ceder. Havia as mais débeis vibrações de esperança à medida que eu via que bem ia lidando com as exigências do dia-a-dia (tinha porém o cuidado de não fazer esforços).

Depois, no segundo dia, quando estava a urinar, vi o jacto passar de amarelo a vermelho e nessa altura soube que era tudo verdade, que não era um sonho, por assim dizer. Pouco depois, como se estivesse fora do meu corpo, ouvi-me a mim próprio dizer: “Não consigo comer esta massa”. Arredei de mim o prato e soube, ao fazê-lo, que, se não podia comer massa, não podia comer coisa nenhuma. De facto, a interpretação que dava às minhas palavras era que os meus órgãos internos estavam a apodrecer irremediavelmente.

Foi nessa altura que acordei. Soube imediatamente que estivera a sonhar, que o sonho durara uma porção de tempo considerável, ao mesmo ritmo que a sua própria narração, que era um sonho com a minha própria morte, que tinha sorte em poder acordar dele – ainda tenho tempo, sussurrei para comigo – mas não me atrevi a voltar a adormecer (embora isso se passasse a meio da noite), porque voltar seria voltar ao sonho”.

in J.M. Coetzee, “Diário de um mau ano”, Dom Quixote, Lisboa 2008

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