Um sonho de Ingmar Bergman

O cineasta sueco Ingmar Bergman conta vários sonhos que teve no seu livro de memórias. “Viajo num avião enorme e sou o único passageiro. O avião levanta voo mas não consegue ganhar altitude suficiente, acabando por voar ruidosamente, em voo raso ao longo de ruas largas. Mantém-se ao nível do último andar dos edifícios, o que me deixa ver, pelas janelas, as pessoas a moverem-se, a gesticularem, nas suas casas. O céu é de um cinzento carregado, e embora eu queira confiar na destreza do piloto, sei que o fim está próximo. De repente vejo-me a voar sem o avião, quer dizer, mexo os braços e consigo, com facilidade manter-me no ar. Admiro-me de nunca ter tentado voar, quando afinal é uma coisa tão fácil. Ao mesmo tempo compreendo que isto requer um talento especial que nem toda a gente possui. Os  poucos que podem fazê-lo têm, no entanto, de se esforçar até à exaustão, acabando por encurvar os braços e distender o pescoço ao máximo. Eu não. Eu esvoaço como um pássaro, sem o mínimo de esforço.”

Ingmar Bergman, Lanterna mágica, editora Relógio D’ Água, Lisboa 2012