Um sonho de Kafka

“Sonhei hoje com um burro que se parecia com um galgo e que era muito contido nos seus movimentos. Observei-o ao pormenor porque estava consciente da rareza da figura, mas apenas retive na memória o desagrado que, por serem compridos e regulares, me suscitavam os seus pés estreitos de pessoa. Dei-lhe folhas de cipreste, frescas, verde-escuras, que uma velha dama de Zurique acabava de me oferecer (o sonho passava-se em Zurique), ele não as quis, apenas as cheirou ao de leve; mas, quando as pousei numa mesa, comeu-as tão vorazmente que só sobrou um caroço parecido com uma castanha, quase irreconhecível. Mais tarde comentava-se que este burro nunca tinha andado sobre as quatro patas, que se mantinha sempre direito como uma pessoa, mostrando o peito prateado e brilhante e o ventre. Mas isso realmente não era verdade”.

In Franz Kafka, Diários, Relógio D´ Água, Lisboa 2014