Um sonho de J. Rentes de Carvalho

Rentes de Carvalho

O escritor J. Rentes de Carvalho conta no seu diário um sonho que teve, “um dos mais nítidos e mais detalhados de que guardo memória”.

“Em estado incorpóreo, o que deduzo do facto de alguns transeuntes me “atravessarem”, encontrava-me numa vasta praça numa cidade chinesa. A época era talvez e a de um passado longínquo, porque em redor não se distinguia qualquer sinal de modernidade: nenhum veículo a motor ou linha eléctrica, e a muita gente presente vestia cabaias de cores sombrias, só de longe a longe se vendo uma vermelha ou amarela. Passavam carruagens e carroças puxadas por cavalos de pequeno porte, havia cães farejando em redor, ouviam-se os ruídos comuns das praças e embora começasse a descer o lusco-fusco em parte nenhuma havia luz. O pavimento era de lages grandes, arredondadas nas bordas, polidas pelo uso, e na praça encontrava-se um único banco, do qual me aproximei levado por irresistível curiosidade. Pela magnificência das suas formas, a preciosidade da madeira e cuidadosamente envernizado como estava, parecia antes um monumento que um objecto para repouso dos passantes. Em letras gravadas profundamente no espaldar, estava escrito em inglês: “it is easier to fight a fish in the water, than the Jesuits in their vineyards” (É mais fácil lutar contra um peixe na água, do que contra os Jesuítas nas suas vinhas”). Sei que li a inscrição sem surpresa e a reli depois para ter a certeza de que a memorizava. Feito isso acordei abruptamente, com um desagradável sentimento de me sentir desprendido de mim mesmo.

in J. Rentes de Carvalho, Tempo Contado, Diário, Quetzal, 2010

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