“Um tempo lento na música instrumental pode sugerir o adormecer”

António Pinho Vargas, compositor, músico ensaísta, autor de dezenas de obras de jazz, orquestra e ópera, doutorado pela Universidade de Coimbra com uma tese sobre “Música e Poder”, refere que na ópera “as personagens  podem mostrar de várias formas os seus distúrbios do sono ou a sonolência como divórcio ou afastamento da vida” e que na música instrumental “um tempo lento ou uma obra com o carácter de lamento, pode sugerir” o adormecer. Tem um pesadelo recorrente com um piano que se decompõe e fica sem som…”

A arte e a literatura estão repletas de referências ao sono e ao sonho. Na música, e num piano em particular, é possível representar o sono ou o sonho?  

Não creio que seja possível representar o sono na música exceptuando no caso da ópera em que, do ponto de vista da ação em palco, uma ou várias personagens podem mostrar de várias formas os seus distúrbios do sono ou a sonolência como divórcio ou afastamento da vida, como sinal de um sofrimento.

Do mesmo modo na música instrumental um tempo lento ou uma obra com o carácter de lamento, pode sugerir. Mas apenas sugerir. O mesmo é válido para o sonho. Todos temos sonhos.  Podem surgir em certas peças elementos que podem ter derivado de sonhos mas não me parece evidente que o ouvinte o possa descortinar se o compositor não o referir previamente.

E no jazz, no qual o António Pinho Vargas também é especialista ?

No caso do jazz julgo que se passa o mesmo que referi anteriormente.

Viveu vários anos na Holanda. Notou nos holandeses hábitos de sono ou comportamentos de higiene do sono muito diferentes dos portugueses?

Sim, há diferenças claras nos comportamentos especialmente nas horas do dia em que socialmente está instituído ou interiorizado dormir. Na Holanda, excepto talvez no verão, dadas as diferenças climáticas, as pessoas deitam-se mais cedo, acordam mais cedo, trabalham mais cedo e as refeições são igualmente mais cedo do que em Portugal.  Julgo que tal se verifica igualmente noutros países do norte. Por vezes às quatro da tarde já é noite e tudo o resto se adequa à falta da luz natural.

Tem uma tese de doutoramento sobre Música e Poder, a ausência da música portuguesa no contexto europeu. Se tivesse havido uma estratégia, um sonho nacional neste campo, devia ter assentando em quê?  

Essa questão é muito complexa. Um “sonho nacional” neste campo implicaria a compreensão do funcionamento da vida musical no mundo e uma vontade política e cultural de agir sobre esse problema. Uma ação nesta área, que fosse para além das declarações genéricas de apoio à música portuguesa, inscritas em todos os programas dos governos que não se traduzem em nada que não vagas intenções, teria de em primeiro lugar considerar o problema que estudei como importante, como relevante, coisa que me parece não estar nas prioridades nem dos agentes políticos, nem nas elites culturais, habituadas há muito tempo a desconsiderar a música feita por portugueses, notoriamente no campo dito “clássico”. O cânone musical europeu não inclui nenhuma obra de nenhum período histórico de um compositor português. Esse é o “mundo da arte” em que todos nós vivemos sem grande problematização.

E na música popular?

Nas músicas populares dos vários matizes não se passa o mesmo. Existe uma possibilidade de afeto, de ligação, de integração nas vidas das pessoas, dos artistas. Pude ver na minha vida a diferença entre essa ligação afectiva enquanto músico de jazz de 1975 até 1990, reforçada pelo impacto dos meus discos a Solo, em que voltei a gravar músicas de há 20 ou 30 anos e senti que para muita gente ela continuava nas memórias e no apreço colectivo, se assim posso dizer.

Existe uma espécie de primazia do ser-em-palco, que nessa área se verifica, em relação aos compositores da música erudita, seres invisíveis escondidos por trás da música que escrevem. Nesta música os heróis são outros. Este é um fenómeno social que está muito enraizado: as elites nunca consideraram em Portugal a música como parte importante da sua cultura. Por isso, há muitas décadas recusei participar num Congresso de escritores com o argumento verdadeiro de que estes não iam aos concertos, não escreviam sobre ela, não a consideravam como parte importante. O isolamento desta prática musical é talvez o maior entre todas as práticas artísticas.

Acontece-lhe acordar a meio da noite com notas para uma melodia. Regista-as?

Julgo que nunca me aconteceu. Mas tive muitos sonhos sobre a minha vida enquanto músico e alguns terão tido importância para a minha compreensão do meu lugar.

O que pensa da expressão Deus não dorme?

Penso que é uma ideia associada simplesmente ao carácter não humano que caracteriza as descrições do divino, enquanto supra-humano, para-além, sobrenatural.  Natural, para os humanos, é dormir. É uma decorrência das ideias de Deus. Inversamente, sublinha o sono como próprio do humano.

Já houve alturas em que sentiu que o sono foi bom conselheiro?

“Dormir sobre o assunto” é outra frase corrente que traduz o facto de, por vezes, um bom sono, servir igualmente como forma de pensar melhor. Senti isso várias vezes. Não dormir bem, pelo contrário, impede o pensamento lúcido, provoca cansaço e dificulta decisões importantes.

Já teve insónias? É mais “coruja” ou cotovia”?
Tive insónias sobretudo “ao contrário”: acordar  meio da noite e não conseguir voltar a adormecer. Durou longos anos e estava a tornar-se muito pesado no dia seguinte.  Sempre precisei de dormir no mínimo sete ou oito horas, mesmo com 18 ou 20 anos.

Lembra-se de alguma história pessoal ou profissional divertida com o sono ou a falta dele? 

Justamente na fase aguda do acordar a meio da noite, levantar e ir tomar fora o pequeno almoço às cinco ou seis da manhã, acontecia-me deitar-me novamente de seguida e adormecer vestido. Uma vez há uns 15 anos a minha mulher acordou e naquela sonolência própria do acordar lento, olhou-me e disse-me depois que tinha pensado: “É estranho. Acho que ele ontem se deitou com pijama…”

 

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