“Uma criança sonolenta não tem hábitos saudáveis de sono”

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Vilma Eusébio, professora do ensino básico na Escola EB 1 de Telheiras diz que a sonolência nas crianças se deve ao deitarem-se tarde, refletindo-se em menor atenção nas tarefas, na motivação e no desempenho escolar.

Há muitas crianças que vêm para a escola com sono? Como se manifesta essa sonolência?  

Não há muitas mas há algumas. A sonolência reflecte-se na atenção e concentração das tarefas, na motivação para aprender e, claro está, no desempenho escolar. Há também alunos que apesar de não apresentarem sonolência não têm noites tranquilas de sono, tendo dificuldades em adormecer ou sofrendo de insónias. Estes, inexplicavelmente, nem sempre revelam fragilidades na aprendizagem.

Através do contacto com os pais apercebe-se que na origem desta sonolência estão principalmente maus hábitos de sono?

Sim. Na grande maioria os pais preocupam-se com estes aspectos mas há aqueles que relevam estas questões. Excetuando algum caso de saúde mais grave, quando uma criança se apresenta frequentemente sonolenta é porque não tem hábitos saudáveis de sono.

E em que consistem esses maus hábitos de sono?

Na generalidade destes casos, as crianças deitam-se tarde, dormindo consequentemente poucas horas para as suas necessidades. Há também o “problema” da televisão no quarto ou dos jogos de computador que substituem atualmente o livro que antecedia a hora de dormida. Estas atividades, atualmente as preferidas das crianças, implicam demasiado estímulos auditivos e visuais. Isto no final de um dia cheio de correrias, passando de atividade para atividade é “a cereja no topo do bolo” para uma noite agitada. Quanto à televisão no quarto, é cada vez mais cedo que se encontra à disposição das crianças e na maioria dos casos sem supervisão do adulto.

Também há outras patologias, como terrores nocturnos, enurese, etc.? 

Também, mas esses são mais difíceis de diagnosticar na escola. Normalmente só temos acesso a estes episódios através dos próprios pais em reuniões individuais e normalmente quando se debatem fragilidades escolares e possíveis estratégias de superação.

Como é que tenta resolver problemas de desempenho escolar em virtude de maus hábitos de sono ou mesmo patologias de sono? E há sucesso nessas intervenções?

Tem sempre de passar por uma intervenção junto dos pais. É difícil incutir hábitos saudáveis nas crianças a curto prazo quando quem estipula as normas e vela pelo seu cumprimento são os adultos. Naturalmente que há casos de sucesso, pessoas menos conscientes mas mais disponíveis que agradecem a chamada de atenção da escola. Mas noutros os comportamentos persistem… Sempre que possível pede-se a colaboração de outros técnicos, apela-se aos pais para levarem a criança ao pediatra, sugere-se uma consulta através do centro de saúde ou no caso de a criança ser acompanhada por algum psicólogo ou pedopsiquiatra trabalha-se com este junto da criança e da família.

Nota que as crianças muito sonolentas são afectadas na interacção com as outras crianças e que a sua auto-estima fica diminuída?

Depende. Nas interações com os outros não necessariamente. No entanto expõem-se mais no grupo pois chegam atrasados. Penso que será difícil aos pais acordá-las e tê-las prontas a horas. Mostram-se alheados nas aulas, temos de os chamar frequentemente à atenção e por vezes chegam a adormecer nas aulas. Isto acrescido do fraco aproveitamento escolar, tem consequências graves na formação da auto estima e da auto confiança de qualquer criança.

Nos planos curriculares, há unidades onde se fala às crianças sobre a necessidade de dormir bem, comportamentos básicos de higiene do sono, como deitar e levantar à mesma hora, não comer muito antes de deitar, etc, com vista à qualidade do sono? 

Na disciplina de Estudo do Meio, designadamente no bloco “À descoberta de si mesmo” – o corpo e a saúde do corpo”, ao longo dos quatro anos de escolaridade são abordados hábitos de vida saudável que passam pelas áreas da alimentação, higiene do corpo, atividade física e descanso.

E sobre como funciona o sono e os mecanismos fisiológicos que lhe estão associados, por exemplo nos planos curriculares do 4º ano? 

Não, não dessa forma tão específica.

Como é que as crianças retratam o sono ou a falta dele em textos e desenhos? E os sonhos?

Em contexto escolar, o sono é na maioria das vezes retratado como o mundo mágico onde coisas maravilhosas e inexplicáveis acontecem… São os sonhos em que os desejos se concretizam, em que se vivenciam os episódios do quotidiano com a segurança e insegurança que caracterizam cada ser. Normalmente não retratam a falta de sono ou mesmo as dificuldades em adormecer.

Nas escolas onde já leccionou houve acções educativas e pedagógicas sobre a qualidade e higiene do sono? Pensa que estas são (seriam) muito importantes?

Não, até à data não, mas creio que se tornam fundamentais.

E acções de formação para os professores?   

Há algumas ações e sessões normalmente promovidas por instituições privadas, por vezes abertas ao público em geral. No entanto parece-me que não surge, por ora, nas temáticas prioritárias dos centros de formação de professores.

Tem alguma história divertida com o sono no âmbito profissional?

Divertida não. Insólita e preocupante. Certo dia fui chamada a um dos espaços do recreio. Um aluno que frequentemente adormecia nas aulas havia adormecido, em pleno recreio, debaixo do parque infantil onde dezenas de colegas brincavam, saltavam e gritavam… Se não tivesse presenciado, acharia que era um exagero. Claro que cada vez que um colega, no meio da brincadeira, o acordava inadvertidamente este repreendia-o bruscamente, com um mau humor terrível. Incrédula, fiquei a observar aquele quadro. De seguida aconchegava-se e voltava a adormecer. Quando soou a campainha, deu um pulo e foi a correr para a aula. Reportei uma vez mais o “incidente” aos pais e à técnica que acompanhava o aluno mas nem com o trabalho de parceria conseguimos ter sucesso…

 

 

 

 

 

 

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