“É estranho os ministros falarem às três e meia da manhã sem saberem do 25 de Abril mas aconteceu”

 

O presidente da Associação 25 de Abril, Vasco Lourenço, comenta ao iSleep, em vésperas do 42º aniversário da revolução, uma situação surpreendente,  e menos conhecida, passada na madrugada do 25 de Abril de 1974. A de dois ministros sem sono do governo de Marcelo Caetano, o da Defesa e o do Exército, que falam por duas vezes ao telefone  às três da manhã  e não sabem que a revolução está na rua.

Vasco Lourenço diz ao iSleep: “É uma situação estranha os ministros estarem acordados àquela hora e falarem ao telefone sem saberem do 25 de Abril mas aconteceu”.

Naquela madrugada de 25 de Abril de 1974, o ministro da Defesa, Silva Cunha e o ministro do Exército, Andrade e Silva, estão ambos em casa e acordados. Telefonam-se às 3 horas e 16 minutos e às 3 horas e 31 minutos. Ambas as comunicações foram interceptadas  pelos militares do Movimento das Forças Armadas (MFA), que ficam muito satisfeitos por saber que o núcleo duro do regime  ainda não sabe da revolução, de modo  a poder preparar a  reacção.

No primeiro telefonema, os ministros falam sobre a situação de instabilidade política e militar. Andrade e Silva tem “conhecimento que há um jantar importante” e que “a DGS anda atrás dos oficiais”. Diz ao colega que “parte para o Alentejo às 07h 00”. Estará em Vendas Novas às 9 da manhã, em Évora ao meio-dia e depois em Estremoz e Elvas. “O comandante da GNR falou à PIDE para escolta”, adianta.

Silva Cunha, hoje ainda vivo, com 96 anos, responde “não haver motivo para preocupações esta noite”.  Recorde-se que em 16 de Março de 1974 tinha havido nas Caldas da Rainha uma tentativa de golpe de Estado militar contra o regime, razão que pode justificar os telefonemas dos ministros noctívagos e as suas precauções.

No segundo telefonema, Andrade e Silva comenta com Silva Cunha que o Presidente da República, Américo Tomás “vai para Tomar com a habitual falta de segurança”, apenas uma patrulha da GNR e da PIDE/DGS.

Os dois homens voltam a falar às 3 horas e 56 minutos mas neste telefonema o MFA apura que já sabem da revolução. Andrade e Silva diz ao colega: “há uma concentração que avança sobre Lisboa”.

Silva Cunha sai de casa e dirige-se para o Ministério do Exército, no Terreiro do Paço. Andrade e Silva faz o mesmo. Cerca das seis da manhã, as tropas do capitão Salgueiro Maia ocupam a praça.  Os dois ministros, juntamente com outros elementos do regime,  sitiados no edifício do Ministério do Exército, passam através de uma porta secreta para o Ministério da Marinha e neste edifício abrem à picareta um buraco na parede e fogem para a rua, acabando porém por ser detidos mais tarde.

 

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