“Às vezes Deus cede ao cansaço e dormita”

Mega Ferreira 1

FOTO: BRUNO VEIGA

António Mega Ferreira, 65 anos, licenciado em Direito, jornalista, escritor, poeta, ensaísta, atual diretor executivo da Orquestra Metropolitana de Lisboa, foi comissário executivo da Expo 98 e ex-presidente do Centro Cultural de Belém entre 2006 e 2011. Em entrevista ao iSleep diz que raramente tem insónias e que o mundo do sonho é “um mundo sem regras”.

Penso que leu Do Lado de Swann, de Marcel Proust, antes dos 20 anos.  Lembra-se o que pensou com a longa descrição da insónia?

Li Do lado de Swann pela primeira vez aos 22 anos. Não tenho ideia de que essa descrição me tenha tocado particularmente, a não ser como realidade estranha e alheia. Aos 22 anos, eu não tinha insónias. Ainda hoje são raras, felizmente…

E como foram as releituras desta parte mais tarde?

Um reconhecimento deslumbrado daquilo que um enorme escritor pode fazer com uma coisa tão simples e tão comum. Continuava então, por volta dos 40 anos, a ter poucas insónias; mas já sabia o que elas custam.

E o sono de Albertine? Marcel está mais apaixonado por ela quando dorme?

É um dos momentos mais belos do sempre torturado amor (“les intermittences du coeur”) de Marcel por Albertine. Na realidade – ele o diz – só quando ela dorme e ele a contempla (é preciso que Marcel, incorrigível voyeur, a contemple) é que o seu amor se manifesta em pleno: “o sono dela realizava em certa medida a possibilidade do amor; a sós, podia pensar nela, mas ela faltava-me, não a possuía. Presente, falava com ela, mas estava demasiado ausente de mim próprio para poder pensar. Quando ela estava a dormir, já não tinha que falar, sabia que já não estava a ser olhado por ela, que já não precisava de viver à superfície de mim mesmo. Ao fechar os olhos, ao perder a consciência, Albertine despira, um após outro, os seus diversos caracteres de humanidade que me haviam decepcionado desde o dia em que a conhecera. Apenas a animava a vida inconsciente dos vegetais, das árvores, uma vida mais diferente da minha, mais alheia, e que, contudo, me pertencia mais.” (A Prisioneira, p. 65) Conviria aproximar esta descrição de um quadro pré-rafaelita (penso, por exemplo, no Ophelia de John Everett Millais).

O que pensa do provérbio Deus não dorme?

Parafraseando Horácio, sobre Homero: “Às vezes, o bom do Homero dormita”. Até parece que cede ao cansaço. Refiro-me a Deus, evidentemente.

Dormir sobre o assunto é uma expressão que faça sentido? Depois vem alguma luz…

Faz, faz. É uma regra que tenho comigo desde há muitos anos. Evitar as reações intempestivas, a quente. Lavrar (por escrito) uma primeira resposta e deixá-la dormir até ao dia seguinte. Fica sempre melhor: o sono põe, entre nós e as coisas, uma distância saudável. Alguns chamam-lhe arrefecimento; outros chamam-lhe simplesmente tempo.

A literatura tem muitas referências ao sono e aos sonhos…. É um mistério que os escritores gostam de retratar?

É um mistério que incendeia a imaginação (a Traumnovelle de Schnitzler é uma obra-prima onírica e desesperadamente real). Mas é, também, a sugestão humana da transcendência quase divina, demiúrgica: o mundo do sonho é um mundo sem regras ou, pelo menos, cujas regras largamente desconhecemos, um continente por descobrir, uma realidade por inventar. Escrever é sonhar que se sonha acordado.

O mesmo se diga da pintura. O que fascina os pintores no sono?

Aí é outra coisa: ou a elisão da razão pelo abandono do corpo, como nos renascentistas, ou, como em Goya, a libertação dos impulsos mais profundos e saturnianos do nosso inconsciente: “’cause in that sleep of death what dreams may come” (como diria Hamlet). Para os decadentistas, o sonho era o estado natural da pintura; para nós, o pesadelo é o estado natural da realidade.

Freud disse que “o sonho é o fiel guardião da nossa saúde psíquica, da nossa alegria de viver, uma vez que a vida não passa de uma contínua procura do prazer, contrariada pela realidade”…

Então, e os pesadelos?! Sei que o sono é “o fiel guardião da nossa saúde psíquica” (e física, já agora). Mas, já quanto ao sonho, tenho as maiores dúvidas. O sonho não tem função nem programa: “le travail inconscient du rêve” é uma narrativa sem desenlace, um potlatch da alma. Freud tinha tantas certezas que não se confirmaram…

Segundo a lenda britânica o Rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda estão adormecidos numa caverna e acordarão quando a Grã-Bretanha precisar deles num momento de emergência nacional? No mito do nosso D. Sebastião, este chega envolto em nevoeiro…

Não sei se os primeiros chegaram a acordar; mas sei que o segundo nunca apareceu.

A que horas gosta mais de escrever?

De manhã e depois do almoço. Menos para o fim da tarde e nada, mesmo nada, à noite.

Acontece-lhe acordar a meio da noite com uma ideia? Costuma registá-la?

Mais do que ideias, frases completas, remates felizes para situações literárias que levei para a cama por resolver. Tenho um caderninho e um lápis em cima da mesa-de-cabeceira, just in case.

Já alguma vez contou carneiros? Ou ninguém conta carneiros?

Eu nunca contei carneiros. Mas também nunca plantei uma árvore. E há gente que passa a vida a plantar árvores. Sei lá eu se há carneiros na contabilidade dos outros!

 

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