“A vigília prolongada reduz a depressão em cerca de 60 por cento dos doentes”

Borbely 3  Alexander Borbély,  um dos maiores especialistas mundiais no estudo do sono e da depressão, autor do conceito de homeostase e do chamado modelo de 2 Processos, dá uma entrevista exclusiva ao iSleep em que desenvolve as suas teorias e revela que “um dos aspetos mais surpreendentes no estudo do sono e da depressão é que as vigílias prolongadas reduzem a depressão em cerca de 60 por cento dos doentes”.

Como foi que chegou à ideia da homeostase do sono? Pode explicar?

Usei o termo “homeostase do sono” pela primeira vez num capítulo de um livro, publicado em 1980, intitulado “Sleep: circadian rhythm versus recovery process”. Os dados que obtive nas experiências com ratos demonstraram que a privação do sono dava origem a um aumento compensatório da intensidade do sono, tal como o indicava o aumento das ondas lentas no EEG. O termo designa um princípio regulador que mantém a pressão do sono dentro de certos limites.

Juntamente com a sua equipa, desenvolveu uma parte substancial do trabalho experimental que demonstra o chamado Modelo de 2 Processos. O que está por trás desta interação entre a homeostase e os mecanismos circadianos?

Publiquei o Modelo de 2 Processos da regulação do sono humano em 1982 e, juntamente com Serge Daan e Domien Beersma, publiquei uma versão aumentada em 1984. O modelo propõe que o tempo de sono é determinado pela interação entre um processo hemeostático e outro circadiano.

A ideia de que quanto mais tempo se está vígil mais aumenta a intensidade do sono e as ondas lentas quando se dorme não tem o risco de levar as pessoas a pensar que podem levar o estado vígil ao limite para dormirem melhor…?

Embora a intensidade do sono aumente com a restrição do sono, a ação recuperativa do sono requer uma certa duração. Se começar a declinar abaixo de um certo limite, então a propensão para dormir opõe-se à manutenção da vigília.

Como encara o facto de ter estabelecido a teoria dominante da regulação do sono?

Apraz-me que o modelo que propus juntamente com os meus colegas possa ser útil, enquanto enquadramento conceptual, para a comunidade das ciências do sono.

Já foi distinguido internacionalmente pelo seu trabalho na investigação da depressão. Qual o papel das perturbações do sono nesta patologia? E da depressão nas patologias do sono?

Os distúrbios do sono são um sintoma comum da depressão. Nos anos 80 considerava-se que determinadas alterações na arquitetura do sono, como a redução da latência do sono REM, eram patognomónicas da depressão. Entretanto concluiu-se que essas alterações não são específicas e também ocorrem noutras perturbações. Um dos aspetos surpreendentes do sono e da depressão é que a vigília prolongada reduz a depressão em cerca de 60% dos doentes. Infelizmente, este efeito é transitório e os episódios de sono seguintes voltam a evidenciar a depressão. Juntamente com Anna Wirz-Justice propus em 1982 que um Processo S deficiente pode estar subjacente aos distúrbios do sono na depressão e à ação antidepressiva da vigília prolongada.

O que falta saber sobre o papel da adenosina enquanto neurotransmissor envolvido nos mecanismos do sono?

A adenosina tem uma ação promotora do sono. A cafeína, um bloqueador dos recetores de adenosina, é o psicoestimulante mais amplamente utilizado no mundo, ao mesmo tempo que promove o estado de vigília. Os mecanismos adenosinérgicos e as suas bases genéticas são neste momento um assunto muito debatido na investigação do sono.

Em 1984, publicou um livro em alemão, depois traduzido para inglês, The Secrets of Sleep. Considera que alguns desses mistérios foram entretanto revelados?

Parafraseando Winston Churchill, o sono é uma charada envolta em mistério dentro de um enigma. Qualquer novo aparelho de medição aplicado para monitorizar ou explorar o sono revela novos dados. Nas últimas três décadas, a tecnologia fez avanços consideráveis e gerou-se uma enorme quantidade de dados. Isso permite-nos olhar o sono e os seus segredos de outras formas. Geralmente, chamamos a isso progresso.

É professor de Farmacologia. Os medicamentos são um mal necessário no tratamento das perturbações do sono?

Penso que são uma bênção, se corretamente administrados. Há um número considerável de pessoas que sofre de insónias – por dor, preocupações ou outros motivos – e que consegue efetivamente repousar se tomar um medicamento.

O efeito placebo no sono é uma solução para o tratamento de algumas perturbações do sono?

Não, o placebo não tem o poder de tratar perturbações do sono graves.

Qual era a descoberta científica capaz de revolucionar o estudo do sono e das perturbações do sono? 

Neste momento não se adivinha qualquer revolução, mas o certo é que elas ocorrem quando ninguém espera, não é verdade?

O Professor dedicou muitos anos à pesquisa do sono nos animais. Que passos já foram dados com estas experiências para melhor perceber o sono humano?  

As características básicas da arquitetura e da regulação do sono são semelhantes em todos os mamíferos. É por isso que o estudo do sono em animais pode ajudar a compreender o sono humano. Há, no entanto, um interesse no sono dos animais por si só.

Um tigre precisa de dormir cerca de 15 horas por dia e uma girafa cerca de duas. Como explicar esta enorme diferença?

Ainda que a minha mulher, que é especialista em sono nos animais, não esteja de acordo com esses números, posso dizer que os carnívoros se podem permitir dormir bastante mais do que os herbívoros. Estão sujeitos a menos ameaças e não têm de passar a maior parte do seu tempo de vigília a alimentar-se.

Os golfinhos continuam a nadar durante o sono e penso que o fazem com apenas um hemisfério a funcionar? Que processo está aqui envolvido?                

Nos golfinhos, verificamos que o sono profundo só ocorre num hemisfério de cada vez, o que mostra que o processo de sono não abrange necessariamente todo o cérebro. Estas observações nos golfinhos fomentaram a procura de fenómenos análogos nos mamíferos. Sabemos que no sono humano há modulações regionais da sua intensidade. É o chamado “sono local”.

Diria que a sua carreira teve várias fases?

A minha carreira científica foi dominada pelo meu fascínio pela ciência do sono. Tive a sorte de encontrar excelentes colaboradores e alunos que partilharam do meu entusiasmo. Entendo as minhas atividades científicas como um processo contínuo, mais do que em várias fases.

O seu artigo sobre o Modelo de 2 Processos, publicado em 1982, tem 2412 citações, um número impressionante. Este facto teve um impacto importante na sua carreira?

Não. Todavia, agrada-me saber que o Modelo de 2 Processos teve repercussões positivas.

As suas publicações científicas tiveram início em 1966. Como conseguiu ter uma carreira tão longa, que se prolongou além da reforma?

É um assunto que continua a fascinar-me.

Foi presidente da ESRS (Sociedade Europeia de Investigação do Sono). Foi um trabalho agradável e desafiante?

Sim, trouxe prazer e desafios. Naquela altura, um dos desafios consistiu em facilitar a participação de cientistas da Europa do Leste, que estavam sujeitos a restrições nas viagens e a outras limitações. Foi durante a minha presidência que decidimos criar uma nova revista, a Journal of Sleep Research. Outra iniciativa foi o “Young Scientists Symposium” (Simpósio de Jovens Cientistas) no primeiro dia do Congresso da ESRS, destinado a estabelecer um fórum para jovens talentos. Gostei de abordar os problemas em equipa, com um conselho internacional e um comité científico que envolviam especialistas básicos e clínicos em ciências do sono de várias disciplinas.

O que pensa da função da ESRS nos tempos atuais?

Foram muitas as sociedades de sono nacionais que se estabeleceram na Europa e para as quais a ESRS assume uma função integradora. Trata-se de uma missão importante, além da promoção da investigação e da formação. Além disso, a ESRS deve assumir uma posição relativamente às tentativas globais de organizar e coordenar a investigação do sono e a medicina do sono. O facto de o congresso bienal da ESRS ter lugar em diferentes cidades europeias é notável a nível científico e em termos de participação. É uma circunstância feliz o facto de haver cientistas de grande projeção internacional dispostos a integrar o conselho e o comité científico da sociedade.

Aristóteles escreveu longamente sobre o sono e a vigília. A curiosidade científica sobre o mistério do sono começou muito cedo…  

Aristóteles afirmou que é impossível que os animais estejam ininterruptamente a dormir ou acordados, “pois todos os órgãos que possuem uma função natural devem ficar mais fracos quando funcionam além do tempo limite específico do seu período de funcionamento.” É este o princípio da homeostase do sono.

Descartes disse que o cérebro está sempre a pensar. Acha que ele se referia ao pensamento da vigília e do sono? É uma descoberta muito importante para o Século XVII…  

Em Meditações Metafísicas, Descartes discute o problema de distinguir as experiências da vigília daquelas que ocorrem durante o sono. Discorrendo sobre as semelhanças entre as duas, que tornam quase impossível distinguir se se está acordado ou a dormir, argumenta por fim que a capacidade de interligação das experiências e de as relacionar com a vida é algo que apenas pode acontecer na vigília. A nossa memória é incapaz de desempenhar esta ação integradora nas experiências oníricas.

O Professor viveu vários anos nos EUA.  Um americano tem uma relação com o sono diferente de um europeu? E em relação aos hábitos de higiene do sono, há muitas diferenças?

Não creio que existam diferenças fundamentais. No entanto, o impacto médico e económico da perda de sono é mais intensamente discutido nos Estados Unidos do que na Europa.

Sei que não dorme muito. É um “short sleeper”? 

Sim, sou um “short sleeper”; durmo em média um pouco mais de 6 horas por dia.

Nasceu em Budapeste em 1939, no início da II Guerra Mundial. Que recordações tem deste tempo?

Guardo muito boas recordações da infância. Mas também me recordo das sirenes noturnas que anunciavam a iminência de ataques aéreos, e de como descíamos apressadamente para os abrigos antiaéreos.

Deixou a cidade muito cedo. Porquê? 

Os meus pais emigraram devido à situação política na primavera de 1944.

Porque escolheu viver na Suíça?

Os meus pais queriam viver num país neutro.

Conhece Portugal? O que pensa do nosso país? Sabia que Budapeste está geminada com Lisboa, ambas cidades lindíssimas?

Tive, por várias vezes, a oportunidade de visitar Portugal. É um dos países de que mais gosto. A sua história e a sua cultura fascinam-me. Lisboa é uma cidade muito bonita, com um clima único. Fiquei encantado de saber que é geminada com Budapeste. As minhas visitas a Portugal estiveram invariavelmente relacionadas com eventos científicos organizados pela Professora Teresa Paiva. Ela é, a meu ver, o epítome de uma notável cientista e humanista, e as suas iniciativas relacionadas com a ciência do sono e a medicina do sono tiveram um enorme impacto não só em Portugal mas também na Europa. E conseguiu arranjar tempo para publicar maravilhosos livros infantis sobre o sono, promovendo a curiosidade sobre este assunto em idades precoces. Tenho por ela a maior admiração e é para mim uma honra ser entrevistado para o seu site.

 

Comments are closed.