Nuno Veiga da Fonseca: “Na TAP há cada vez mais baixas por cansaço”

Nuno Veiga da Fonseca

Nuno Veiga da Fonseca, tripulante de voo na TAP e membro da Direcção do Sindicato Nacional de Voo da Aviação Civil, diz em entrevista ao iSleep que a companhia aérea portuguesa sobrecarrega os profissionais com horas de trabalho, o que se traduz em problemas de saúde e um número muito elevado de baixas por cansaço.

Os horários por turnos e irregulares das tripulações de voo desafiam o relógio biológico e causam desajustamentos na vida profissional e pessoal. Que medidas têm sido tomadas no sector da aviação para minorar este problema?

As medidas tomadas no sector têm sido, em certa medida, opostas a uma linha de estabilidade pessoal e familiar dos profissionais. Pela legislação geral em vigor o limite de tempo de trabalho diário é de 14 horas, podendo ser prolongado até às 18 horas, com um tempo mínimo de descanso entre voos de 12 horas. A folga semanal, que deve ser planeada a cada 7 dias é de apenas 36 horas, contadas entre o momento da aterragem do avião e a descolagem do mesmo para o próximo voo. A nova legislação europeia, também conhecida por Flight Time Limitations, e que foi aprovada no final do ano passado no Parlamento Europeu, é ainda mais limitadora do descanso das tripulações e muito pouco sensível  à vida pessoal e familiar dos tripulantes. No entanto, os profissionais  que trabalham ao abrigo de Regulações Colectivas de Trabalho, através de Acordo de Empresa, acabam por ter a vida pessoal e familiar mais protegida.

E em relação ao problema do jet-lag?

Não tem havido também preocupação a este nível. Há legislação nacional mas é muito genérica. A nível europeu existe maior cuidado na elaboração da legislação e dos acordos de empresa e também na aplicação de períodos de descanso que reduzam os problemas originados pelo jet lag. Infelizmente no nosso país a postura das companhias aéreas é a de “esticar” ao máximo a utilização dos trabalhadores, o que origina um número muito elevado de baixas por cansaço e problemas de saúde.

Sei que recentemente teve uma experiência de jet-lag acentuado  …

A TAP tem agora voos para Bogotá e para a Cidade do Panamá,  capitais latino-americanas que ficam situadas a 6 horas de diferença de Lisboa. Fiz este voo há pouco tempo e o resultado foi acordar durante todos os dias da estadia na hora de Lisboa,  8 horas da manhã, quando eram duas horas da manhã locais… Não consegui descansar convenientemente a não ser no último dia. Depois, de regresso a Lisboa, andei mais quatro ou cinco dias para me recompor.

O que precisa de ser feito pelas companhias de aviação e outras entidades do sector para melhorar a qualidade de vida e de sono das tripulações?

É preciso olhar para os bons exemplos, como o dos EUA, e perceber que o agravamento das horas de trabalho e as limitações ao descanso e ao tempo familiar e pessoal criam situações de stress e desgaste que podem vir a originar situações graves de insegurança.

Muitos passageiros que andam de avião desconhecem se as tripulações têm um esquema rotativo de descanso em voos de longo curso. Existe este procedimento? Têm locais próprios para descansar? E descansam efectivamente?

Há companhias aéreas que têm aparelhos onde é possível o descanso horizontal durante o voo mas apenas em trajectos de longo curso. Em Portugal, na totalidade das viagens de médio curso,  ainda que os tempos de trabalho das tripulações sejam por vezes superiores a 10 horas, não existe local para descanso. E mesmo quando esse espaço existe está situado junto dos passageiros ou nos bancos de descolagem e aterragem…  É importante acrescentar que o descanso decorre sempre da disponibilidade de tempo para o mesmo. Caso o serviço não o permita ou exista alguma situação anormal no voo o descanso não se faz ou é muito reduzido.

Que alterações devem fazer os fabricantes de aviões e as companhias que os compram para garantir o descanso das tripulações no interior de uma aeronave? São medidas viáveis?

Nas aeronaves mais recentes de longo curso existe por parte dos fabricantes a preocupação de enquadrar no avião locais que permitam o descanso das tripulações. Também da parte das companhias aéreas existe este cuidado mas apenas porque os voos estão a tornar-se cada vez mais longos e com um número cada vez menor de tripulantes, dentro dos limites legais. É uma “preocupação” que acaba por não ser genuína…

 

“Na Europa está a reduzir-se o tempo de descanso”  

 

Nos relatórios de alguns acidentes aéreos concluiu-se que a fadiga humana contribuiu para o mesmo ou foi a sua causa determinante. O que há a retirar destas conclusões?

As conclusões são muito simples. Na década de 80 os Estados Unidos foram pioneiros na desregulação da aviação comercial. Houve aumento dos tempos de trabalho e redução do número de tripulantes por aparelho. As consequências nefastas de tudo isto não se fizeram esperar. Entretanto, esta atitude já foi alterada nos Estados Unidos mas, por ironia, começou a ser seguida nos países europeus. Estes têm vindo a implementar alterações legais que vão reduzir o descanso das tripulações. O Flight Time Limitations é disso um excelente exemplo.

A saúde e o bem-estar dos profissionais da aviação estão ameaçados na Europa?

Os tripulantes são seres humanos, necessitam de repouso de modo a que os níveis de stress e fadiga não se acumulem ao ponto da ruptura  física e psíquica. As longas horas de trabalho e as cada vez mais reduzidas horas de descanso, perturbando os ciclos do sono, não são, aliás o único problema de saúde. A incidência de cancro entre tripulantes de aviões comerciais é altíssima. A menor oxigenação do ar e  a falta de humidade no ar dos aviões também tem consequências gravíssimas na saúde.

Há alguma história curiosa que conheça ou se recorde num voo relacionada com o sono ou a falta dele, envolvendo tripulação ou passageiros?

Lembro-me de um passageiro embarcado no Rio de Janeiro para Lisboa que era notório não ter dormido grande coisa durante a sua estadia naquela cidade do Brasil e que se “apagou” ao sentar-se no seu lugar e dormiu as quase dez horas de voo. À chegada a Lisboa teve de ser despertado pela tripulação, já após a saída de todos os outros passageiros e foi, literalmente, a chocar com a cabeça contra todas as bagageiras até à porta de saída do avião. Outra situação foi a de um passageiro que vinha para Lisboa e que tinha embarcado numa pequena cidade da China. Resultado das inúmeras ligações que foi obrigado a fazer estava em viagem, sem dormir, à cerca de 35 horas. Durante a última “perna” de 8 horas de voo, entre o Brasil e Lisboa, também não dormiu e quando chegou à capital portuguesa insistia que lhe tinham roubado os bilhetes porque queria ir… para Lisboa e agora não iria conseguir. A falta de sono e o cansaço acumulado, estavam de tal modo a comprometer o seu discernimento que ele “apagou” literalmente  as últimas oito horas de voo e achava estar ainda no Brasil.

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