“O sonho é a ficção dos nossos dias”

Sofia Angelo

FOTO: RAUL PINTO

Sofia Ângelo, actriz e encenadora de teatro, diz em entrevista ao iSleep que “o artista sempre se obrigou a chegar ao público pela emotividade e pelo reconhecimento de ideias e inquietações”.  Sobre o sonho diz que “é a ficção dos nossos dias”.

 Quando iniciou a carreira teatral? E a de encenadora?

Iniciei a minha carreira , como atriz, quando tinha 19 anos, com o passar dos tempos, fui trabalhando com vários encenadores que foram uma enorme inspiração e que de certa forma me impulsionaram a desenvolver também o papel de criativa, neste caso como encenadora, nalgumas peças que escrevi e outras que fui desafiada a encenar e adaptar.

Que peças destacaria, representadas ou encenadas por si, onde o sono ou o sonho foram parte do enredo?   

Precisamente uma das peças que escrevi para teatro, Poltrona I e II, aquando de um ciclo de novos criadores promovido pelo Teatro da Garagem, apresentei uma dramaturgia claramente fixada em temas oníricos e fantasmáticos. Foi um espectáculo  que se traduziu em ação constante entre o sonho e realidade, sonhos adormecidos mas despertados pelo sono, que de certa forma descodificam a interioridade  e memória da personagem principal.

Como Professora de Teatro, considera que a juventude se interessa por teatro?

O teatro é na sua essência o lugar onde se vê, o espaço de reconhecimento e de comunicação, logo um espaço inevitável de encontro. Penso que a juventude se interessa por aquilo que se interessa pela juventude, isto é, os jovens desenvolvem hoje um movimento mais receptor do que que emissor. Se o teatro chegar até aos jovens, teremos mais jovens emissores de cultura porque o seu pensamento, a sua capacidade constante de questionar o que observam é fundamental para um teatro que ser quer rejuvenescido e ter sentido critico. Se o nosso movimento, enquanto artistas, professores, atores, etc,  for o de escuta ativa perante aquilo que interessa aos jovens, teremos certamente mais teatro que toque de forma certeira àquilo que preocupa, ou afeta ou simplesmente emociona os jovens.

Que balanço faz do teatro em Portugal?

Sempre acreditei que a crise deveria ser um motor de criação, acredito que grande parte das obras de referência artísticas que temos foram feitas sobre grande pressão, pressões politicas, económicas, etc., o artista sempre se obrigou a chegar ao público pela emotividade, pelo reconhecimento de ideias, de inquietações. Hoje temos uma crise que coloca o Homem num espaço isolado, no seu solipsismo, num adormecimento. Esse individualismo faz com que as peças, as obras, os objetos artísticos sejam muitas vezes feitos do artista para o artista, ou noutro caso diametralmente oposto, dos artistas para as massas, com uma perspectiva generalista sobre o mundo, na maior parte das vezes formatada. Neste sentido o nosso teatro é pobre em termos de produção, tem receio de risco , “de dar tiros no escuro”, o que só o enriqueceria.

Imagine que um governo fazia uma aposta firme na cultura e particularmente no teatro. O que teria de fazer em concreto para haver uma revolução efectiva? 

A criação de pólos culturais, multidisciplinares, nos quais as práticas teatrais se relacionassem com outras práticas artísticas performáticas e plásticas, para que dessa forma pudessem trabalhar integradas, criando sinergias entre si. Este pólos seriam espaços embrionários e laboratoriais com vista às práticas artísticas, com realização de produções diversificadas  e protocolos estabelecidos com entidades e instituições de ensino, de solidariedade social, etc para que eficazmente a cultura pudesse chegar ao máximo número  possível de pessoas. E que estas tivessem acesso desde  os 5 anos aos 80 anos (risos). Acredito que esta é a verdadeira educação não formal e vai ao encontro de uma crença que vive comigo há já muito tempo de que o teatro só pode ganhar quando acompanhado das referências e ligações possíveis com outras artes. De resto não existe qualquer teatro, peça, obra, ensaio que não implique a ligação de todas as outras artes, música, dança, pintura, escultura, etc. Esta integração serve uma verdadeira  cultura de pessoas para pessoas, tornando-a  mais acessível e menos mercantil,  para que haja mais cultura e mais pensamento critico sobre o que vemos e sentimos perante um objeto artístico, na medida em que este nos devolve ferramentas de atuação perante a sociedade em que vivemos.

 

A literatura está repleta de referências ao sono e ao sonho. É um mistério que os escritores gostam de retractar?

O nosso subconsciente  é algo absolutamente criativo, estamos verdadeiramente a viver em sono, além de que o sonho é a ficção dos nossos dias, neste sentido sonhar é criar. O sonho inquieta-nos, inspira-nos. Os escritores retratam os sonhos nas suas narrativas, e as suas narrativas são certamente movidas por alguns sonhos.

Que parte de um livro, peça teatral ou poema  escolheria que retracte o sono ou o sonho?

A canção absolutamente teatral, Sonhos são sonhos, do Chico Buarque

E um filme?

O Gabinete do Doutor Caligari

Preocupa-a que os políticos, que tomam decisões cruciais para a vida dos cidadãos, afirmem que dormem pouco?

Sim, preocupa-me, a responsabilidade carece de descanso, o descanso pode ajudar-nos bastante a encontrarmos posteriormente um maior distanciamento perante as decisões que queremos tomar.

O ex-ministro grego Yanis Varoufakis, disse que estava aliviado por se ter libertado “de uma vida enlouquecida, absolutamente inumana, em que dormiu duas horas por noite durante cinco meses”…

Pois exactamente, o sono é uma das melhores apostas quando temos a responsabilidade de governar. Procura hábitos e respeitar a higiene do sono deveria ser imperativa para todos os que têm tanta responsabilidade nas mãos.

Tem comportamentos de higiene do sono, como não beber café à noite, deitar e levantar a horas regulares, não fazer exercício físico poucas horas antes de deitar, etc? 

De todas, infelizmente, só cumpro uma, não bebo café à noite.

O que pensa da expressão Deus não dorme?

Penso  por vezes que gostaria de ser Deus por causa da sua omnipresença mas rapidamente percebo que prefiro dormir, não sou Deus e não quero controlar e saber tudo o que me rodeia, seria no mínimo aborrecido e nalguns momentos perturbador. Por vezes é mesmo preferível respeitar o sono, pois através do sonho vejo mais do que quando estou acordada. Isto no sentido em que não estou preocupada. A preocupação constrange o ato de se ver verdadeiramente com os olhos.

Já houve alturas em que sentiu que o sono foi bom conselheiro? Em que medida a ajudou?

Sim, ajudou-me a ver com distanciamento e com mais clareza,” dormir sobre o assunto”, não no sentido de o adormecer mas no sentido de o clarificar.

Já teve insónias? É mais “coruja” ou “cotovia”?

Já tive muitas insónias. Na verdade sempre me senti mais cotovia mas inevitavelmente, por questões profissionais  acabo por ser mais coruja.

Lembra-se de alguma história pessoal ou profissional divertida com o sono ou a falta dele? 

Curiosamente já me aconteceu várias vezes sonhar que estou a dormir e não acordar e o público estar à minha espera , em noite de estreia, naturalmente acontece-me sempre antes de estrear seja o que for!

Pode contar-nos um sonho fantasioso que tenha tido?

Uma vez sonhei que entrava dentro de água, uma água cristalina. Lá dentro, com o meu corpo mergulhado, conseguia ver pedaços da minha casa… foi um sonho estranho, inesquecível.