“Esconderam-me a mota e entrei em pânico”

 

Paulo Gonçalves , 37 anos, campeão mundial de moto em 2013 e vencedor de  vários troféus internacionais numa carreira que já leva duas décadas, diz em entrevista ao iSleep que há provas no Dakar que começam às quatro da manhã, o que constitui um desafio para o seu relógio biológico, habituado a oito  horas de sono, entre a meia-noite e as oito da manhã.

Nota: Paulo Gonçalves, falecido num acidente a 12 de janeiro de 2020,  deu esta entrevista ao iSleep há quase quatro anos, agora republicada em homenagem ao grande piloto. As nossas condolências à família. 

Dormir o número suficiente de horas antes de uma prova é essencial. Como é que o Paulo Gonçalves o consegue fazer em situações que não são as melhores?

Não é fácil. Há provas em que temos melhores condições, organizadas com tempo pela estrutura da equipa, mas há outras em que se tem de improvisar e depois dá mau resultado. Já tive situações em que montámos as tendas e depois tivemos que levantar tudo. Não conseguíamos dormir porque os colchões só tinham dois centímetros de espessura e estávamos sob pedras. Alisámos o terreno e depois montámos tudo outra vez. 

São momentos em que se pensa numa cama confortável?

É verdade, pensa-se muitas vezes numa cama confortável.

Que provas já lhe tiraram o sono?

tive várias provas que me tiraram o sono, na véspera de corridas decisivas em que me senti mais nervoso e agitado.

Durante as provas que se prolongam por várias semanas, como é o caso do Dakar, quantas horas costuma dormir?

Há dias em que dormimos quatro ou cinco horas. Temos provas que começam às quatro da manhã e levantamo-nos por volta das duas e meia. Nestas provas, deito-me por volta das dez e meia. Não é fácil adormecer, não só pela tensão da competição mas também por ser cedo  e o nosso relógio biológico não estar habituado. Nestas alturas, já tomei comprimidos para dormir, receitados  pelos médicos da minha equipa.

E o comprimido funciona?

Sim, acabamos por ter um sono mais descansado.

E o sono é pouco reparador nas provas do Dakar?

No Dakar, andamos por vezes quinze ou dezasseis horas seguidas em cima da mota. Chegamos ao fim do dia muito cansados. Há uma sensação de estar a dormir mas ao mesmo tempo acordado. É aqui que o comprimido para dormir se torna essencial para ter um sono mais relaxado.

Teve alguma situação mais complicada no Dakar por causa do cansaço?

Uma vez, há sete anos, adormeci em cima da mota. Foi depois  de andar a dormir mal vários dias, com aquela sensação de estar acordado face ao stress da prova.

Já teve problemas de jet lag em algumas provas, disputadas em países com diferentes fusos horários?

Em regra não porque a equipa desloca-se para o local da prova com vários dias de antecedência, o que permite a habituação do nosso relógio biológico ao diferente fuso horário.

Os acidentes rodoviários ocorrem muitas vezes de madrugada por sonolência dos condutores. Como resolver este flagelo?

O trabalho de prevenção é essencial. Convencer os condutores que têm de fazer mais pausas e que têm de adaptar as suas condições específicas à condução. Um condutor com tendência para ficar mais sonolento tem de tomar consciência disso para não conduzir tantas horas ou parar mais vezes.

Já houve situações na sua vida em que o sono foi bom conselheiro?

Claro que já houve. Depois  de uma noite de sono é tudo diferente. Há dias em que nada corre bem mas depois de dormimos, sentimos que  amanhã é de facto outro dia.

Adormece facilmente? É mais “coruja” ou “cotovia”?

Durmo normalmente oito horas, deito-me por volta das onze, meia-noite, e levanto-me às oito.

Tem preocupações com comportamentos de higiene do sono, como não beber café, deitar a horas regulares, etc?

Como já disse, deito-me a horas regulares. Não devia mas por vezes bebo café.

Tem alguma  história divertida, na sua vida profissional ou pessoal, envolvendo o sorno ou a falta dele?

Um dia, num Dakar na Argentina,  estava tão cansado depois de várias noites mal dormidas  que tive de parar para dormir à beira da estrada porque já não aguentava mais. Mal me deitei, adormeci. Foi tiro e queda. Atrás de mim vinham dois colegas meus, um português e um brasileiro, que resolveram pregar-me uma partida. Esconderam-me a mota. Uma carrinha cheia de gente chegou a parar ao pé de mim e os “brincalhões” disseram que estava tudo bem. Acordei quando a carrinha arrancou e entrei em pânico porque  pensei que me tinham roubado a mota. Quando me viram completamente fora de mim, apareceram os meus  colegas que estavam escondidos do outro lado da estrada numa  grande risota.