“A noite adormece, pacífica”

O poeta Ruy Cinatti escreveu um poema sobre a noite e o sono, intitulado “Escolha”.

“A noite, a minha vida adormecida,

o grão‑silêncio, o grão minha semente

adormecida, grão

com bacalhau, o pão, azeite e vinho…

O bacalhau sugere‑me a insígnia

do capitão,

do grumete

ou cão

da Terra Nova,

com felpa, botas e touca

de borracha

e um cheiro a sal e a fígado

oleificado.

Outros ingredientes cujo nome sei,

mas não lembro, grão,

semente oculta,

noite que tudo nos oferece,

nada me dá, mas aquece

o que em mim está, o que vive

nela semente, dente,

o ser vivo, esse, esse

irredutível, morte e minha glória.

A noite adormece, pacífica.

A semente vivifica, intromete‑se

nos minerais, no ar, na luz visível

violenta

do sol que contamina.

Da virulenta mistura violação real catástrofe,

o que não sei

dignifica‑me. Por quem eu luto

O que os meus olhos vêem é um enigma.

O que os meus olhos olham passa a passo.

Mais do que exactos são uns olhos verdes,

vagueando em florestas submarinas.

Mais do que nenhuns são preciosos

e eu não quero perdê‑los, ó deuses!

Percam‑se os olhos, os meus, o ver, o olhar, mas nunca a luz verde de alguns olhos…

in Ruy Cinatti, Obra Poética, Assírio & Alvim, Lisboa 2016

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