“A noite parecera-lhe demasiado longa e ao mesmo tempo demasiado curta”

A escritora canadiana Alice Munro escreve um conto de uma noite de insónia no seu livro “O Amor de Uma Boa Mulher”.

“Enid não dormiu durante toda a noite – nem sequer tentou. Não conseguia deitar-se no quarto da Sra. Quinn. Deixou-se ficar sentada na cozinha, horas e horas. Custava-lhe muito mover-se, mesmo para fazer chá ou ir à casa de banho. Mover o corpo implicaria baralhar as informações que estava a tentar absorver e ordenar mentalmente. Não se tinha despido nem soltado o cabelo, e quando escovou os dentes teve a sensação de executar uma tarefa árdua e invulgar. O luar entrava pela janela da cozinha – que estava às escuras – e Enid ficou a observar um feixe de luz que atravessava a noite e deslizava pelo linóleo, até ele desaparecer. Ficou surpreendida quando a mancha desapareceu, e também quando os pássaros começaram a cantar, no alvor do novo dia. A noite parecera-lhe demasiado longa e ao mesmo tempo demasiado curta, pois não conseguira tomar nenhuma decisão”.

in O Amor de Uma Boa Mulher, Alice Munro, Relógio D’ Água, Lisboa 2008

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