“A sonolência, ainda por desafiar, continuou a lançar a sua sombra sobre as imagens e as sensações”

O escritor norte-americano Amor Towles conta que Aleksandr Ilitch Rostov, personagem do seu romance “Um Gentleman em Moscovo, só acorda verdadeiramente com uma substância  milagrosa.

“O conde Aleksandr Ilitch Rostov acordou às oito e meia, ao som de chuva no beiral. Com um olho semiaberto, puxou as cobertas para trás e saiu da cama. Vestiu o roupão e calçou os chinelos. Pegou na lata que estava na cómoda, colocou uma colherada de café no Engenho e começou a dar à manivela.

Apesar de girar e girar a pegazinha da maquineta, o quarto permaneceu sob a autoridade difusa do sono. A sonolência, ainda por desafiar, continuou a lançar a sua sombra sobre as imagens e as sensações, as formas e as formulações, sobre o que foi dito e o que tem de ser feito, conferindo a tudo a insubstancialidade que a caracteriza. Mas quando o Conde abriu a gavetinha de madeira da máquina de moer, o mundo e tudo o que ele continha foram transformados pelo fenómeno que suscita a inveja dos alquimistas: o cheiro a café acabado de moer”.

Amor Towles, Um Gentleman em Moscovo, D. Quixote, Lisboa 2018

 

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