Abade Faria criou teoria revolucionária no sono hipnótico

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Estátua do Abade Faria em Goa

 

O Prémio Nobel da Medicina Egas Moniz defende na sua biografia do Abade Faria que o célebre hipnotizador português que inspirou Alexandre Dumas no romance o Conde de Monte Cristo foi o percursor de teorias que só viriam a ser desenvolvidas décadas mais tarde pelos conceituados Charcot e Babinski. (O Abade  Faria na História do Hipnotismo, Egas Moniz, Lisboa 1977,  Editorial Vega)

Egas Moniz refere que por um lado o Abade Faria “não aceitou a amnésia total e completa” dos hipnotizados durante a hipnose mas por outro lado concluiu que o paciente “não pode fazer um relato perfeito do que se passou durante o sono”.  “Há uma nubilação que não é total” conclui Egas Moniz sobre as experiências do Abade Faria.

“Ele notara que alguns hipnotizados ao despertarem continuavam por algum tempo com as sugestões sensoriais impostas que a breve trecho se desvaneciam. Notou ainda que os factos que se lhes gravavam na memória persistiam como um sonho. Não aceitou sem restrições a amnésia total e completa dos epoptas, o que concorda com as observações de Babinski” escreve Egas Moniz.

“Faria, como meticuloso observador, viu o problema da sugestão sob os mais variados aspectos, procurando os seus efeitos não só em epoptas adormecidos mas ainda no estado de vigília. Todos os efeitos de sugestão, diz ele, manifestam-se não somente durante o sono lúcido mas também nos epoptas acordados, quando tenham sido, pelo menos, uma vez adormecidos” acrescenta.

O único Prémio Nobel da  Medicina português  conclui que “o padre Faria (…) como que esboça, em toda a sua vastidão a doutrina que mais tarde irradiou de Salpêtrière sob o impulso de Charcot e até um pouco as novas noções de Babinski”. (in O Abade  Faria na História do Hipnotismo, Egas Moniz, Lisboa 1977,  Editorial Vega)

José Custódio de Faria nasceu em Goa em 30 de Maio de 1746 e faleceu em Paris em 20 de Setembro de 1819. Em 1771 partiu com o pai para a Europa, tendo-se fixado em Roma. Ingressou no Congresso da Propaganda Fide onde se formou em Teologia em 1780. Voltou depois a Lisboa, onde o pai era confessor de D. Maria I. Por suspeitas de envolvimento na revolução da Índia em 1787, pai e filho tiveram de exilar-se em França. Dois anos mais tarde o Abade Faria assiste e participa nalguns actos da Revolução Francesa.

É em Paris que se dedica aos estudos do magnetismo animal então muito em voga pelos trabalhos de Mesmer e Puységur e escreve a sua obra mais célebre, “De la cause du sommeil lucide”. Em 1813 abriu com sucesso um curso de magnetismo na capital francesa e pela sua clínica passaram as elites do tempo de vários pontos da Europa. Polémico, apontado como maníaco por Chateaubriand ou como bruxo por Alexandre Dumas — que se inspirará nele  para criar a personagem que na prisão do Castelo de If revela a Edmond Dantés o mapa de um tesouro que mudará a vida deste e fará dele Conde de Monte Cristo — o Abade Faria só será verdadeiramente reabilitado no século XX  como percursor incansável dos estudos sobre o sono hipnótico como fenómeno psíquico.

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