Anna Karénina: “sabia que se ele acordasse havia de olhá-la com um olhar frio, seguro da sua razão”

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Num dos melhores romances de sempre, Lev Tolstoi faz uma análise psicológica da personagem principal, Anna Karénina, através do sono e de um sonho com um velho mujique:

No gabinete, ele dormia num sono profundo. Ela aproximou-se e, iluminando-lhe o rosto de cima, ficou muito tempo a olhá-lo. Agora que ele dormia, amava-o tanto que ao vê-lo não conseguiu reter as lágrimas de ternura; mas sabia que se ele acordasse havia de olhá-la com um olhar frio, seguro da sua razão, e que ela, antes de lhe falar do seu amor, teria de lhe demonstrar como era culpado perante ela. Sem acordá-lo, voltou para o seu quarto e depois de uma segunda dose de ópio adormeceu já quase de manhã, um sono pesado e incompleto durante o qual nunca chegou a perder a consciência de si.

De manhã, foi acordada por um pesadelo horrível, que se repetira  diversas vezes ainda  antes da sua ligação com Vronski. Um velho mujique com a barba desgrenhada fazia qualquer  coisa debruçado sobre um ferro, enquanto proferia palavras francesas sem sentido, e ela, como sempre durante aquele pesadelo (e nisso consistia o horror) sentia que aquele mujique não lhe prestava atenção, mas fazia aquela coisa horrível com o ferro por cima dela, fazia qualquer coisa estranha nela. E acordou alagada em suores frios”.

in Anna Karénina, de Lev Tolstoi, editora Relógio D`Água, Lisboa 2008

Traduzido (do russo) por António Pescada