As longas insónias de Proust

Proust pequeno

FOTO: Jacques-Emile Blanche

O escritor francês Marcel Proust (1871-1922) terá começado a ter insónias na juventude, motivadas por crises de asma que o mantinham desperto. Escrevia apenas na cama, em posição quase horizontal, com a cabeça apoiada em duas almofadas. Em Busca do Tempo Perdido, longo romance sobre o tempo e a memória (ou o tempo através da memória), foi escrito principalmente de noite. Nele, o sono entrecortado constitui como que os momentos fugazes de reencontro com o tempo – tempo que, de alguma forma, é preciso consolidar.

“Durante muito tempo fui para a cama cedo…” é um frase que já faz parte do património literário da Humanidade. Assim começa  a obra monumental “Em busca do tempo perdido”

“Durante muito tempo fui para a cama cedo. Por vezes, mal apagava a vela, os olhos fechavam-se-me tão depressa que não tinha tempo de pensar: «Vou adormecer.» E, meia hora depois, era acordado pela ideia de que era de tempo de conciliar o sono; queria poisar o volume que julgava ter nas mãos e soprar a chama de luz; dormira, e não parara de reflectir sobre o que acabara de ler, mas tais reflexões haviam tomado um aspecto um tanto especial; parecia-me que era de mim mesmo que a obra falava: uma igreja, um quarteto, a rivalidade entre Francisco I e Carlos V. Esta crença sobrevivia alguns segundos ao despertar; não me chocava a razão, mas pesava-me nos olhos como escamas, e impedia-os de verificar que a palmatória já não estava acesa. Depois começava a tornar-se-me ininteligível, tal como, após a metempsicose, os pensamentos de uma existência anterior; o assunto do livro soltava-se de mim, e ficava livre de me adaptar ou não a ele; logo recuperava a vista, e ficava muito admirado de encontrar em meu redor uma obscuridade, doce e repousante para os olhos, mas talvez ainda mais para o espírito, ao qual se revelava como coisa sem causa, incompreensível, como coisa verdadeiramente obscura. A mim mesmo perguntava que horas poderiam ser; ouvia o apito dos comboios que, mais ou menos afastado, como o cantar de um pássaro numa floresta, acentuando as distâncias, me descrevia a extensão dos campos desertos onde o viajante se apressa para a próxima paragem; e o estreito caminho para onde segue vai ficar-lhe gravado na memória pela excitação que deve a lugares novos, a actos inusitados, à conversa recente e às despedidas à luz do candeeiro alheio, que o acompanhavam ainda no silêncio da noite, à doçura próxima do regresso.

Encostava ternamente as minhas faces às belas faces do travesseiro, que, cheiras e frescas, são como que as faces da nossa infância. Riscava um fósforo para olhar para o relógio. Não tardaria a ser meia-noite. É o momento em que o doente que foi obrigado a partir de viagem e teve de dormir num hotel desconhecido, despertado por uma crise, rejubila ao distinguir debaixo da porta uma tira de luz. Que alegria, já é manhã! Daqui a pouco os criados estarão de pé. Poderá tocar a campainha, alguém virá socorrê-lo. Precisamente, julgou ouvir passos; os passos aproximam-se e depois afastam-se. E a tira de luz que havia debaixo da porta desapareceu. É meia-noite; acabam de apagar o gás; foi-se embora o último criado e terá que ficar toda a noite a sofrer sem remédio.

Readormecia, e por vezes tinha apenas curtos instantes despertos, apenas o tempo de ouvir os estalidos orgânicos das madeiras, de abrir os olhos para fitar o caleidoscópio da obscuridade, de saborear, graças a um momentâneo clarão de consciência, o sono que submergia os móveis, o quarto, o todo do qual eu não passava de uma pequena parte e a cuja insensibilidade depressa tornava a juntar-me. Ou então, dormindo, fora sem esforço ao encontro de uma idade para sempre passada da minha vida primitiva, deparara com um dos meus terrores infantis, como aquele de um tio-avô me puxar pelos caracóis do cabelo e que se dissipara no dia – que para mim marcava uma nova era – em que mos haviam cortado. Esqueceram-me do acontecimento durante o sono e recuperara essa recordação mal conseguira acordar para escapar às mãos do meu tio-avô, mas por medida de precaução cingia completamente a cabeça com o travesseiro antes de volver ao mundo dos sonhos…”

 

in Marcel Proust, Em busca do do Tempo Perdido, Do Lado de Swan, tradução de Pedro Tamen, edição do Círculo de Leitores