As novas escravaturas sorridentes

Trabalhadores que estão várias horas sentados numa caixa de supermercado sem ter direito a comer ou ir à casa de banho. Ou que recebem chamadas sobre o trabalho, de noite, ao fim de semana, nas férias. Pais que chegam às nove da noite a casa e a única coisa que fazem é deitar os filhos.  Ambientes de trabalho sem luz natural, com as paredes pretas ou muito escuras. Teresa Paiva escreve sobre as “novas escravaturas”, com consequências terríveis para a saúde.

Na Roma antiga os escravos remavam em galés, matavam e morriam nas arenas, e eram visivelmente maltratados. Foi assim em todas as escravaturas conhecidas que, deve dizer-se, nalguns países acabaram há relativamente pouco tempo.

Em Portugal a escravatura foi abolida em 1761 (há mais de 250 anos!) pelo Marquês de Pombal, mas só em 1869 (mais de 100 anos depois) ela é proclamada para todo o império português em lei com efeitos definitivos em 1878.

Em França a escravatura abolida durante a Revolução Francesa em 1794, é reposta por Napoleão uns anos mais tarde, para ser abolida definitivamente em 1848.

Em Inglaterra é primeiro abolido o comércio de escravos em 1807 e em 1833 a escravatura, com efeitos para todo o império britânico no ano seguinte.

Em 1861 Alexandre II, na Rússia, decreta o fim da servidão dos camponeses.

Nos EUA a abolição é proclamada por Abraham Lincoln em 1863 e pelo congresso americano dois anos depois.

No Brasil, a lei Áurea, uma lei imperial surgida após várias tentativas anteriores, determina a abolição da escravatura em 1888.

Mas, no Mundo a abolição terminou mais recentemente, e já no século XX: na China em 1906, na Etiópia em 1942, em Marrocos em 1956, na Arábia Saudita em 1962, na Mauritânia em 1981 e no Sudão definitivamente em 1990.

Lincoln e Alexandre II pagaram com a vida as leis libertadoras e Martin Luther King a defesa de iguais direitos; nos EUA os conflitos raciais violentos são notícias quase diárias, também o são notícias de escravidão/comércio sexual e barbaridades esclavagistas pelo mundo fora, denotando por um lado a violência das forças envolvidas e por outro a impregnação do “direito” à submissão de outrem nos hábitos sociais.

Como médica contacto diariamente com as consequências de práticas de trabalho que diria terem carácter esclavagista.

Passo a enunciar 5 situações tipo:

  • Estar várias horas consecutivas sentado numa caixa de supermercado sem ter direito a comer ou ir à casa de banho tem consequências para a saúde: a) O tempo prolongado de jejum vai provocar hipoglicémias e aumentar o apetite e absorção dos alimentos na refeição subsequente, sendo um risco para aumento de peso. Uma doente minha, diabética, teve, no seu trabalho, uma crise de hipoglicémia grave ao fim de 5 horas sem comer; b) O tempo excessivo sentado e sem mexer as pernas aumento o risco de tromboses; c) O sedentarismo e a monotonia do trabalho facilitam erros.

Pergunta: Isto é necessário? Não há alternativas simples de organização do trabalho?

 

  • Quando um pai, uma mãe ou ambos chegam habitualmente a casa às 9 horas da noite o jantar vai ser tardio e a atenção para com os filhos vai ser perturbada: ou excessiva e permissiva para os compensar da ausência, ou fraca por se estar exausto. Quando um casal chega a casa tarde e a única coisa que faz é deitar os filhos e ir para a cama a intimidade do casal vai-se esbater. A prazo os custos para a família no seu todo, para o casal e para os filhos são pesadíssimos: separações, zangas, insucesso escolar, consumos, insónias, depressões, esgotamentos, etc… Os custos para a sociedade são enormes: baixas, doenças, consumo médico, conflitos, acidentes, consumo judicial, etc.

 

Perguntas: Qual vai ser a diminuição de eficiência de trabalho para o caso dele ser excessivo? Será que as empresas precisam mesmo de trabalhadores que façam 10, 12 ou 14 horas de trabalho por dia? Isto é legal? Será legítimo ter trabalhadores de “usar e deitar fora”, sem qualquer responsabilidade social?

 

  • O Estado e as empresas trabalham agora por objectivos, e se é útil e legítimo ter planeamento, o carácter punitivo de desvios por vezes milimétricos aos tais objectivos contratualizados, para além de pouco inteligente é muitas vezes, por circunstâncias exteriores ao trabalhador, impossível de cumprir. A acrescer a estes objectivos há o aparecimento de “anúncios” repetitivos no computador informando que ainda não cumpriu o que tinha a cumprir ou que o prazo para o fazer está a terminar. Isto corresponde garantidamente a aumentar o stress; o trabalhador segrega mais cortisol e mais adrenalina, aumenta a ansiedade, faz erros e produz pior. Em termos médicos tem um aumento do risco de insónia, ansiedade, depressão, problemas de memória e lapsos, e maior risco cardiovascular. Em termos da empresa vai ter um aumento de absentismo ou presenteísmo, mas não faz mal “porque há uma fila à porta procurando emprego”.

 

Pergunta: É legítimo afectar a saúde dos trabalhadores para assegurar o sucesso das empresas? Pode uma empresa crescer indefinidamente até ao infinito ou pode-lhes acontecer que, nessas diatribes gulosas, rebentem como aconteceu com o sapo que inchou, inchou … até que…

 

  • Contam-me também os doentes outras coisas: ou que estão sempre a ser interrompidos ou que recebem chamadas a toda a hora, de noite, ao fim de semana, nas férias.

As interrupções constantes impossibilitam um pensamento concentrado num assunto, e resultam muitas vezes do hábito nacional de interromper por ninharias. Fazê-lo é ter a cabeça em estilo de catavento a virar-se para muitos lados, mas nestes casos sem encontrar o “vento” dominante.

Há também quem conte que é posto de lado, ficando sem nada para fazer ou com coisas muito abaixo da categoria. Há quem diga que é insultado, enxovalhado ou desprezado. Histórias de pessoas verdadeiras demasiado dramáticas para aqui serem contadas.

 

Pergunta: As interrupções fora de horas do chefe são ou não um abuso, se não existe nenhum perigo verdadeiro e eminente? Isto do assédio moral no trabalho é coisa séria, por vezes tão traumatizante que muito raramente o trabalhador vai até as ultimas consequências. Para quando o fim do chicote no trabalho?

 

  • Há ainda um outro aspecto: com a dificuldade de distinguir o dia da noite há ambientes de trabalho sem luz natural, com as paredes pretas ou muito escuras. Isto é terrível para o humor, se se pensar que fomos feitos para viver ao ar livre com muitas cambiantes de cenário e de cor, quando não se está nos pólos nem no deserto. Por sua vez a iluminação com LEDs ao fim do dia em períodos nocturnos, vai sobrecarregar os trabalhadores de luz no espectro do azul, a cor do nascer do sol que nos estimula a vigília, e que nos impedirá de dormir a seguir.

Pergunta: A luz é o nosso grande sincronizador (bendito Sol!). Há legislação para a iluminação do local de trabalho?

 

O “doce perfume do capital” conseguiu uma coisa extraordinária: ter pessoas felizes por terem trabalho, contentes por conseguirem coisas inauditas, estimuladas por serem melhores que os outros e tudo isto com o aceno simpático de um salário ao fim do mês, por vezes até bastante bom outras não, e as potencialidades doces desse mesmo salário: milhares de coisas para comprar e promessas de paraísos.

Pergunta: As técnicas descritas em cima são ou não técnicas de tipo esclavagista? Para quando um novo Padre António Vieira ou um Spartacus do século XXI?

 

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