As Sestas de Almada Negreiros

Neste desenho de carvão em papel, intitulado A Sesta e datado de 1939, Almada Negreiros invoca a sesta dos amantes cansados ou o sono como lugar onde a paixão amansa. Almada também dedicou à sesta um texto de 1913 publicado na revista Orpheu.

A Sesta

Pierrot escondido por entre o amarelo dos girassóis espreita em cautela o sono dela dormindo na sombra da tangerineira. E ela não dorme, espreita também de olhos descidos, mentindo o sono, as vestes brancas do Pierrot gatinhando silêncios por entre o amarelo dos girassóis. E porque Ele se vem chegando perto, Ela mente ainda mais o sono a mal-ressonar.
Junto d’Ela, não teve mão em si e foi descer-lhe um beijo mudo na negra meia aberta arejando o pé pequenino. Depois os joelhos redondos e lisos, e já se debruçava por sobre os joelhos, a beijar-lhe o ventre descomposto, quando Ela acordou cansada de tanto sono fingir.
E Ele ameaça fugida, e Ela furta-lhe a fuga nos braços nus estendidos.
E Ela, magoada dos remorsos de Pierrot, acaricia-lhe a fronte num grande perdão. E, feitas as pazes, ficou combinado que Ela dormisse outra vez.

(A Sesta, Almada Negreiros)

 

Este pequeno texto A Sesta foi publicado em 1913 no primeiro número da revista Orpheu juntamente com uma série de outros pequenos textos de Almada que davam pelo nome de Frisosprosas ilustradas. Anos mais tarde, em 1939, surge o desenho de carvão em papel com o mesmo título. Em ambos a mesma invocação: a sesta dos amantes cansados; o sono como lugar onde a paixão amansa.

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