“As vítimas são muito maltratadas em Portugal”

Teresa Paiva deu uma longa entrevista ao Jornal i em 25 de Outubro onde falou sobre os presumíveis crimes de Pedro Dias, o homem de Aguiar da Beira, foragido da justiça há quase um mês, e a questão sempre actual da psiquiatrização do mal. O iSleep publica extractos dessa entrevista ao jornal i. A neurologista e especialista em medicina do sono também esteve a 26 de Outubro na edição da noite da SIC-Notícias para falar sobre os mesmos temas.

 

“ A meu ver tem havido muita tendência de psiquiatrizar o mal, de fazer do mal uma doença psiquiátrica, o que me parece errado”.

 

“É difícil estabelecer se no momento do crime havia ou não um estado psiquiátrico que retire toda a responsabilidade à pessoa. Isso pode acontecer, mas só em casos muito específicos, numa esquizofrenia talvez”.

 

“O problema que se põe é saber se, efetivamente, aquilo é uma coisa do cérebro mas, mesmo havendo algo no cérebro, se a pessoa pode ter ou não responsabilidade moral”.

 

“Sabemos que há regiões do cérebro que funcionam em situações violentas e as pessoas criminosas podem ter alterações, agora isso não as torna necessariamente inimputáveis. Se não, repare: com o crescendo de entidades psiquiátricas nunca ninguém seria julgado. No último Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais (DMS-5), há uma série de perturbações psiquiátricas que podem ser associadas ao crime: perturbação de conduta, personalidade antissocial, distúrbio de cleptomania, o distúrbio explosivo intermitente, perturbação voyeurista, sadismo sexual e pedofilia. Reconhece-se que isto são alterações psiquiátricas mas isso não significa que as pessoas não sejam capazes de decidir”.

 

“Algumas alterações psiquiátricas e crimes têm factores de risco semelhantes, como o abuso sexual na infância, baixas condições socioeconómicas, ter tido traumas na infância ou ter presenciado agressões graves. De uma forma ou de outra, temos de encarar os factores de risco de uma forma não determinista. Mas não só nesta área da violência. Quando ouvimos dizer que um doente tem uma depressão porque a mãe o abandonou, quantas pessoas foram abandonadas pela mãe e fazem a sua vida? A Oprah Winfrey é um exemplo conhecido, nasce de uma relação fortuita, violada em criança, teve problemas mas conseguiu de alguma forma superá-los”.

 

“Se metade da população tiver um distúrbio psiquiátrico, há aqui um enorme campo de intervenção. Tem-se entrado num extremo em que o risco é não punir, o que pode ter um impacto devastador nas vítimas. Se aceitarmos que um tipo mata a mulher porque teve um distúrbio explosivo intermitente, então desgraçadas das mulheres vítimas de violência, nunca tinham justiça. Idem para a pedofilia. São crimes com consequências terríveis ao longo da vida e que têm de ser punidos”.

 

“Penso que, em termos mundiais, tem de haver uma reflexão séria se não qualquer dia tudo é uma doença. E sobretudo uma maior atenção às vítimas, que também precisam de apoio e tornam-se pessoas mais vulneráveis. Parece que nunca se analisa a perspectiva da vítima, quando ser vítima é uma coisa terrível. Andar-se anos à espera de justiça, um sofrer e reviver constante do que se passou e ver que a pessoa que lhe fez tanto mal não sofre consequências é uma coisa horrível”.

 

Pode ver a entrevista de Teresa Paiva na SIC-Notícias, no seguinte endereço electrónico:

http://sicnoticias.sapo.pt/opiniao/2016-10-26-Teresa-Paiva-neurologista-na-Edicao-da-Noite-1

Partilhar: