“Com insónias e uma vida a que na realidade não pode chamar-se vida, não é?”

Esther Hillesum (1914-1933), jovem judia holandesa que escreveu um Diário entre 1941 e 1943,  antes de ser deportada para Auschwitz e aqui morrer, fala destes tempos de guerra e sofrimento na Europa, onde o sono era, naturalmente, muito afectado:

“Começo a ter problemas de insónia, não devia ter. Saltei para fora da cama muito cedinho e ajoelhei-me ao pé da janela. A árvore estava completamente imóvel nessa cinzenta manhã parada. E eu rezei: ‘Meu Deus dá-me a mesma calma grande e poderosa que também existe na tua natureza. E se queres que eu sofra, nesse caso dá-me o sofrimento imenso e absorvente, mas não me dês os milhares de pequenas ralações que consomem uma pessoa e a destroem completamente. Dá-me calma e confiança. Deixa-me ser algo mais, deixa que cada dia para mim seja mais do que as mil pequenas ralações da sobrevivência diária. E todas as ralações que temos acerca da comida, da roupa, do frio , da nossa saúde, não são outras tantas pequenas moções de desconfiança em ti, meu Deus. E tu castiga-nos imediatamente por isso, não castigas? Com insónias e uma vida a que na realidade não pode chamar-se vida, não é?’

In Diário, 1941-1943 , Etty Hillesum, Assírio & Alvim, 2020,

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