“Deitava-se por volta das nove da noite e acordava às primeiras horas da madrugada”

A escritora brasileira Clarice Lipector tinha grandes problemas com o sono, ao ponto de uma noite ter sido trágica. O crítico norte-americano  Benjamin Moser descreve-a na biografia de Clarice Lispector.

“Os dois vícios de Clarice, os cigarros e os comprimidos para dormir , tinham, finalmente, conseguido vencê-la. Clarice dormia numa cama de solteiro colocada junto de uma janela com cortina, e sempre tivera dificuldade em dormir, deitando-se normalmente por volta das nove da noite e acordando às primeiras horas da madrugada. Nessa noite, depois de tomar os comprimidos, sentou-se na cama, a fumar. Acordou com o quarto já em chamas. Em pânico, e na tentativa de salvar os seus documentos, tentou apagar o fogo com as próprias mãos. O filho, Paulo, tirou-a do quarto em chamas e começou a tocar insistentemente à campainha do apartamento do lado. Os assustados vizinhos, Saul e Heloísa Azevedo, acordaram depararam-se com Clarice de pé, com queimaduras por todo o corpo, diante da porta deles. Ela não disse uma única palavra. Saul e Paulo apressaram-se a apagar o fogo, enquanto Heloísa levava Clarice para dentro de casa. A sua camisa de dormir, de nylon, estava parcialmente queimada e agarrada ao corpo e, enquanto caminhava por cima da alcatifa de Heloísa, Clarice ia deixando manchas de sangue por todo o lado”.

 

in Clarice Lipesctor, Uma Vida, Benjamin Moser, Civilização Editora, Porto 2010

Partilhar: