Carla Diniz, enfermeira: “Desde que faço turnos de noite convivo muito menos com amigos e família”

Carla Diniz

Carla Diniz, 42 anos, enfermeira no Hospital de S. José, na Unidade Cerebro Vascular, faz  turnos de noite desde que iniciou a profissão há 20 anos. Hoje trabalha em média três a cinco noites por semana, o que faz com que esteja muito pouco tempo com a família e amigos. Quando tirou o curso ouviu “falar muito superficialmente do sono, nunca da medicina do sono” e hoje pensa que as coisas não mudaram muito: “os colegas mais novos não se preocupam com as questões do sono”.

Ao longo da sua carreira profissional fez muitos turnos de noite? Com que intensidade?

Desde há 20 anos que iniciei a atividade profissional que faço turnos de noite. Ultimamente, em média faço três a cinco noites por semana

Foi difícil adaptar-se?

No início tive dificuldade em adaptar-me, depois com a continuação é mais fácil, mas sempre que faço uma pausa o recomeço é difícil. Com o passar dos anos o reinício é mais difícil.

Que efeitos teve o trabalho nocturno ao nível do seu ritmo biológico?

O trabalhar por turnos alterou o meu ritmo. Atualmente fico mais ativa durante a noite, o trabalho rende mais. Mas de dia não consigo dormir mais que  duas a três horas. Quando não estou a trabalhar de noite, tenho dificuldade em adormecer, adormeço tarde e acordo tarde.

E que novos hábitos de sono ou comportamentos de higiene do sono  adoptou enquanto fez turnos de noite?   

Quando faço turno de noite, de manhã tento fazer tudo o que preciso na rua, depois vou para casa tomo o pequeno-almoço, tomo um duche e depois deito-me, cerca das 12 horas e durmo até às 16 horas. Levanto-me e faço as coisas em casa.

Houve fortes desajustamentos no campo familiar ou social em virtude do trabalho por turnos?

Houve, desde que trabalho essencialmente de noite convivo muito menos com os meus amigos e praticamente não saio com eles. Com a família também é complicado porque estou um pouco com eles ao final do dia e depois vou trabalhar.

É muito frequente os AVC causarem perturbações do sono? É um efeito notório que se depara numa enfermaria de AVC? 

Sim os nossos doentes com AVC na sua maioria têm alterações do sono, dificuldade em dormir durante a noite, fazendo-o durante o dia.

E ao nível dos doentes que sofreram AVC há muitas queixas de que antes do AVC tinham insónias e outras perturbações do sono? 

Uma parte dos doentes não tinha qualquer alteração do sono mas a maioria já tomava medicação para dormir.

Costuma aconselhar comportamentos de higiene do sono aos seus doentes? E vê isso também nos seus colegas?

Costumo, alguns dos meus colegas também têm essa preocupação

Que comportamentos de higiene do sono aconselha? 

Que os doentes tentem criar rotinas de sono, que bebam algo quente e calmente e reduzam a luminosidade antes de deitar.

No curso de enfermagem que tirou houve cadeiras onde se falasse do sono e da medicina do sono?

Quando tirei o curso ouvi falar muito superficialmente do sono, nunca da medicina do sono.

E hoje acha que os cursos de enfermagem são diferentes neste campo ou que pelo menos os enfermeiros mais jovens estão mais sensibilizados para as questões do sono saudável? 

Penso que as coisas não mudaram muito. Os colegas mais novos não se preocupam muito com as questões do sono.

Tem alguma história divertida ou curiosa relacionada com o sono ou a falta dele na sua actividade de enfermeira?

Por vezes trocar os nomes, não saber se é dia ou noite. Uma vez, um colega recebeu um doente durante a noite e em vez de lhe perguntar porque tinha vindo ao hospital, perguntou-lhe porque é que tinha vindo ao cinema.

Os enfermeiros nas urgências, quando fazem a triagem, já podem pedir exames. Pensa que esta prática devia ser alargada a outras situações, aumentando as competências do pessoal de enfermagem? 

Não, penso que o caminho é outro.Os enfermeiros neceesitam é de se afirmar como profissão, como elemento necessário e importante na prestação dos cuidados, dando visibilidade ao trabalho que realizam.