“Como Diabo ia eu dormir?”

O escritor norte-americano Jack Kerouac narra uma noite de insónia com o calor na sua obra-prima “Pela Estrada Fora”

“Estávamos tão cansados que precisávamos urgentemente de dormir, e levámos o carro uns metros pela estrada de terra batida até à parte detrás da povoação. Estava um calor tão incrível que era impossível dormir. Assim, Dean pegou num cobertor e estendeu-o sobre a areia macia e quente da estrada e põs-se a chonar. Stan estava estirado no banco da frente do Ford com as duas portas abertas para fazer corrente de ar, mas nem sequer corria o mais leve sopro de vento. Eu, no banco de trás, penava alagado em suor. Saí do carro e fiquei plantado a vacilar nas trevas. Num instante, a vila inteira fora-se deitar, o único ruído que se ouvia agora era o de cães a ladrar. Como Diabo ia eu dormir? Milhares de mosquitos já nos tinham mordido a todos no tronco e nos braços e nos tornozelos. Foi então que tive uma ideia luminosa: saltei para cima do tejadilho de aço do carro e estendi-me ao comprido de costas. Continuava a não correr a menor aragem, mas o aço encerrava um elemento de frescura e secava o suor das minhas costas, coagulando milhares de insectos sem vida em grumos sobre a minha pele, e dei-me conta de que a selva se apodera de nós e nós metamorfoseamo-nos nela. Estar deitado no cimo do carro com o meu rosto virado para o céu negro era como estar deitado num baú fechado numa noite de Verão. Pela primeira vez na minha vida o tempo atmosférico não era o que me tocava, me acariciava, me gelava ou me fazia transpirar, mas convertia-se em mim. A atmosfera e eu tornámo-nos a mesma coisa. Suaves chuveiros infinitesimais de insectos microscópicos caiam em leque sobre o meu rosto enquanto dormia, e eram extremamente agradáveis e calmantes”.

in Jack Kerouac, Pela Estrada Fora, Relógio D’ Água, Lisboa 2011

 

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