“Distúrbio de comer relacionado com o sono pode causar obesidade e consumo de substâncias tóxicas”

A neurologista e especialista em medicina do sono Teresa Paiva e a cardiopneumologista Sofia Rebocho apresentaram um estudo de caso sobre o Distúrbio de Comer relacionado com o Sono  no 25ª Congresso Português de Cardiopneumologia (Virtual), que se realizou a 9 e 10 de outubro de 2020. O iSleep apresenta-o:  

“O distúrbio do comer relacionado com o sono (DCRS) é uma parassónia do sono NREM, durante o qual o paciente se levanta para comer (preferencialmente alimentos calóricos), de forma inconsciente e com componentes confusionais.

Habitualmente ocorre em despertares durante as fases N2 e N3 do sono, não existindo recordação dos episódios, e pode ter consequências problemáticas (ex. consumo substâncias tóxicas, obesidade, etc). O DCRS é mais comum em mulheres e tipicamente inicia-se no começo da idade adulta. Pode ser idiopático ou ocorrer em associação com outros distúrbios do sono, consumo de fármacos ou outras condições clínicas (ansiedade, depressão).

Caso clínico: Mulher de 18 anos que recorre à consulta de sono por dificuldades em iniciar o sono, com diminuição do tempo total de sono e horários irregulares. Reporta episódios de comer noturno (pipocas, batatas fritas, etc.), dificuldades de memória/concentração e um historial de depressão/crises de ansiedade recorrentes. Medicada com Quetiapina, Escitalopram e Zolpidem. Foi pedida a realização de electroencefalograma (EEG) com prova de sono, actigrafia e polissonografia (PSG) com vídeo. A PSG possibilita a caracterização da fase do sono onde ocorrem os eventos e qual o nível de consciência associado, que varia entre a não recordação e a recordação parcial. Durante a PSG ocorreram 6 episódios de comer (entre a 1h31min e as 3h58min, com duração variável) que se iniciam em N2 e N3 e durante os quais há períodos de oscilação entre vigília e sono. Apesar de existir um padrão de EEG predominantemente vígil, não existe recordação dos eventos, sugerindo uma dissociação entre o EEG e o nível de consciência. A macroestrutura do sono encontrava-se alterada, com um aumento da fase N3 e diminuição do REM, existindo apenas dois ciclos de sono. Não foram registadas anomalias cardiorrespiratórias ou de movimentos dos membros. O EEG não apresentou alterações significativas e a actigrafia revelou horários muito irregulares, com diminuição do tempo médio de sono e atividade motora significativa durante o mesmo. Na consulta, o Zolpidem foi descontinuado e a paciente iniciou Topiramato. Foi incluído no tratamento acompanhamento psicológico e uma melhoria na higiene do sono. Conclusões: A PSG é um exame fundamental, não só por possibilitar a caracterização dos episódios de DCRS como para avaliar a possível associação com outros distúrbios do sono e permitir o diagnóstico diferencial com outras condições clínicas”.

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