Thomas Bernhard: “Eu dormia quando era pastor e lia a minha Bíblia”

Thomas Bernardt

O escritor austríaco Thomas Bernhard tem um poema maldito sobre Paris, escrito nos anos 1950, em que fala várias vezes sobre o sono:  “não posso dormir, porque três milhões fazem muito barulho!”, Ou  “Eu dormia quando era pastor e lia a minha Bíblia”.

I

Não posso dormir, porque o circo veio parar

em frente à minha janela e muita gente acorre em alvoroço!

Como através da erva

do Inferno, vejo os seus rostos, que trazem a esta cidade a destruição

e as poesias inesgotáveis, de que ouvi

falar, a dormir, entre Nancy e Versalhes,

das celas da prisão sob as estrelas do rio,

que envia ao céu a sua amargura,

nas margens e nas florestas, que fedem aos cadáveres dos alemães.

Eu dormia quando era pastor e lia a minha Bíblia

e não pensava no metropolitano que despedaçava o meu sono,

como se eu fosse culpado, como se tivesse aniquilado raparigas

e induzido rapazes a um sono de dez horas,

como se eu fosse um dos mendigos que não mostram o rosto

quando o sol vai passear por cima da catedral,

como se eu fosse o homem dos olhos que vos apunhalam, porque

não quero morrer à fome, «à la fin tu es la de ce monde ancien…»

Oh, eu conheço o meu Pascal e os meus poetas dos pavilhões,

os gemidos que saem dos hospitais sobre o Sena

e que a fétida manhã faz entrar pela tua janela, atingindo em cheio

o teu coração, que tens de trazer contigo, mesmo que o quisesses devorar,

esse coração, num sítio verde e soalheiro, esse coração

que uma vez se arrastou no doce feno e sonhou com baldes de leite a sussurrar,

esse coração que sufocava nas estradas, que esteve nas fábricas

e teve de respirar o suor da gente néscia que trabalhava nas queijarias,

esse coração que viu nascer o dia antes de o Sol chegar,

que dormitava com ladrões em frios catres

no fim dos comboios,

nas margens das bebedeiras,

nas margens da erva,

nas margens da glória,

nas margens da ciência,

esse coração que quer sair do cárcere, para ser livre como as aves

e como as nuvens de Março pairar sobre a Torre Eiffel, com a qual

estou para ter as maiores conversas do ano,

deste ano de luto e tristeza.

II

Não posso dormir, porque três milhões fazem muito barulho!

Três milhões que sonham com os progressos da técnica,

que rezam a sua luta sob os solavancos das locomotivas,

que dos sarcófagos de vidro fumegam para a manhã,

não posso dormir, porque sei que eles desprezam o meu rosto,

_este rosto que foi uma vez carne e sangue

e que esta noite se contrai, para se tornar na visagem horrenda do

Diabo,

no abismo, no aniquilamento,

um rosto que não é digno de nenhuma paz,

este meu rosto, que viu mais que todos os rostos desta cidade juntos,

desta cidade que chora nas árvores e sob o vestido de seda

da «chansonette» na praça da Concórdia… (…)

in Thomas Bernhard
Na Terra e no Inferno (Paris)
Assírio & Alvim, 2000

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