“Durmo profundamente depois da tareia que apanho nas etapas de camião”

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Elisabete Jacinto, a melhor piloto portuguesa de todo-terreno, exímia condutora de camiões, conta ao iSleep várias aventuras sem sono nos trilhos dos desertos. “As estrelas são maravilhosas” diz a piloto “mas admirá-las é mau sinal porque quer dizer que tivemos problemas e não chegámos ao acampamento”.         

Que provas é que já lhe tiraram o sono antes de as disputar?

Foram várias. Lembro-me particularmente da primeira prova que fiz fora de Portugal. Era a Baja Alta Alcarria, em Espanha, em 1994. O resultado do prólogo não foi brilhante e fiquei aflita. De noite não conseguia dormir. Estava particularmente preocupada com a possibilidade de não fazer uma boa prova. No final acabei por fazer um resultado excelente e venci a Taça de Senhoras.

Dormir um número suficiente de horas antes de uma prova é essencial. Como é que um piloto o consegue fazer em situações que não são as melhores? 

Dormir um número suficiente de horas é essencial todos os dias diria eu que durmo normalmente nove horas! A correria é constante e por essa razão chego ao final do dia sempre muito cansada.

Nas provas as condições são péssimas. Dormimos em tendas no meio do barulho e do frio do acampamento. Há noites em que dormimos tão vestidos que nem nos conseguimos mexer. O colchão é muito fino e se o chão não for plano sentimos o desconforto da má posição durante toda a noite. Há quem não consiga dormir. Contudo, depois da tareia que apanho durante as etapas com o camião sempre a sacudir  durmo profundamente! Conclusão: o cansaço físico é um dos segredos para uma boa noite de sono.

Qual foi a pior noite numa prova, dormindo pouco ou não pregando olho?

Já tive várias más noites. A mais recente foi a última noite no Rali Africa Race de 2014. Estava em segundo lugar da categoria camião mas o meu adversário estava muito próximo de mim. Preocupava-me o facto de saber que o meu camião não estava em muito bom estado para um etapa particularmente difícil como sabia que ia ser a do dia seguinte. Sabia que as probabilidades de não conseguir manter o segundo lugar eram muito grandes e isso chateava-me muito. Assim que me deitei adormeci. Mas acordei a meio da noite e não conseguia voltar a adormecer. Fui dando voltas e voltas no saco cama. Tentei ouvir musica mas havia demasiadas coisas que me chateavam para que conseguisse desligar… Algumas horas depois peguei no meu bloco e na caneta e desabafei para as folhas de papel. Feito isto adormeci. No dia seguinte as coisas complicaram-se e acabei mesmo por perder o segundo lugar. Fiquei em terceiro nesse rali.

Qual a sensação de adormecer com as estrelas do deserto? As dunas fazem que não se pense numa cama confortável…      

O céu no deserto é absolutamente lindíssimo. Não há humidade e por isso conseguimos ver as estrelas todas. É maravilhoso. Contudo, se dormimos na situação de podermos admirar as estrelas é muito mau sinal. Quer dizer que tivemos problemas e não chegámos ao acampamento. Nessas circunstâncias não é a falta de uma boa cama, que nunca temos, que nos impede de adormecer.

Lembro-me das primeiras etapas maratonas que fiz no rali Aïcha des Gazelles  (uma prova feminina de navegação à carta).  Naquela época os dias e as noites ainda eram quentes no deserto. Eu e a minha navegadora decidíamos sempre dormir ao relento e não montávamos as tendas. Era fantástico. Tínhamos a sensação de respirar bom ar durante toda a noite e ficávamos um bom bocado a admirar as estrelas antes de adormecer.

Em 2009, no Dakar Argentina-Chile teve problemas de jet lag que se reflectiram nas provas?

Fomos uns dias mais cedo e esse problema acabou por não nos chatear.

Em 2006 no “Dakar” que partiu de Lisboa teve uma avaria no seu Renault Kerax, em pleno deserto da Mauritânia, que a obrigou a pernoitar duas noites junto ao veículo. Como foi essa aventura? Conseguiu dormir?    

Consegui dormir tão profundamente que fiquei admirada de ainda ali estar quando acordei no dia seguinte. Estávamos à espera do camião vassoura que demorou dois dias e duas noites a passar no local. Nessa altura o meu camião tinha uma muito má suspensão. A minha preparação física também não era tão boa como a que tenho hoje e o cansaço ao fim do dia era muito grande. Apesar da situação horrível em que me encontrei nessa primeira noite dormi profundamente…

Os acidentes rodoviários dão-se muitas vezes de madrugada por sonolência dos condutores. Como resolver este flagelo? 

Conduzir durante toda a noite não é nada boa ideia. Um dos nossos princípios quando fazemos viagens longas é o de parar para dormir mesmo que estejamos cheios de pressa para chegar a casa…. Exactamente porque tenho a consciência de que um ligeiro pestanejar pode deixar que os olhos fiquem fechados mais tempo do que é suposto e num segundo tudo pode acontecer. Assim durante o dia fazemos muitos quilómetros seguidos. Fazemos uma pausa a meio da manhã, outra para almoçar, outra a meio da tarde e depois para jantar. Assim perdemos o mínimo tempo possível mas paramos para dormir.

Aprendemos esta lição numa das viagens de regresso de Marrocos em 1999, depois de um treino de vários dias. Conduzimos durante toda a noite. No dia seguinte, depois de almoço adormecemos os três e encostámo-nos ao carro da frente. Tivemos sorte, não aconteceu nada… mas isso bastou-nos para aprender a lição.

É licenciada e professora de Geografia, com manuais escolares publicados. A experiência do deserto torna as lições mais fáceis? 

Neste momento não estou a dar aulas mas o facto de praticar um desporto que é muito atractivo para os alunos fazia com que ficassem com muita curiosidade e por essa razão mais receptivos. O facto de andar pelo deserto e de contactar directamente com os vários aspectos da natureza, naturalmente ajuda-me a compreende-los melhor.

Já teve de abordar matérias sobre diferentes hábitos do sono em diferentes países? Por exemplo, os holandeses dormem mais de janelas abertas para seguirem os ciclos de luz… 

Não foi tema que me tivesse lembrado de considerar  mas no meu caso sinto que estou cada vez mais sensível aos ciclos de luz.

Já houve situações na sua vida em que o sono fosse bom conselheiro? Em que medida a ajudou? 

Acho que posso dizer que a noite é sempre boa conselheira. Acontece-me acordar durante a noite quando tenho algum problema em mãos e é nessas pausas do sono que acabo por tomar decisões importantes ou aproveito para preparar mentalmente algum trabalho que tenha de realizar no dia seguinte.

Adormece facilmente? É mais “coruja” ou “cotovia”? 

Adormeço facilmente mas preciso de ficar alguns minutos para descontrair antes de adormecer. Esses minutos são-me muito úteis porque acabo sempre por reflectir sobre coisas que não tive tempo de considerar durante o dia. Sou muito activa e por isso de dia tenho sempre dificuldade em adormecer.  Não sou muito do género de fazer sestas.

Qual a história mais divertida envolvendo o sono ou a falta dele na sua carreira de piloto?

Em 2003 fiz o meu primeiro Dakar de camião. Não tinha experiência e tudo correu mal. Aconteceu que comecei a atrasar-me muito e tinha de conduzir durante a noite para chegar ao acampamento. As coisas complicaram-se e começamos a fazer directas. O meu record foram três dias com duas noites pelo meio sempre a conduzir. Sem dormir. Recordo o momento em que o navegador me perguntou:- “Elisabete estás bem?”. “Sim” respondi, “E tu?”. “Eu não. Não consigo ter os olhos abertos!” A partir daquele momento ele passou a dormir o tempo todo. Com a cabeça completamente pendurada tinha a capacidade de acordar no momento certo para dar indicações de caminho. Eu ia conduzindo e fazia tudo para não adormecer. Lembro-me que seguíamos por uma estrada de alcatrão no meio da noite e eu era a única que não dormia. A certa altura apanho um valente susto quando o navegador me agarra no braço de repente e me grita “Barreira de Polícia!”. Demorei algum tempo a conseguir ver a barreira de polícia que estava mesmo á minha frente e tive de travar com força. Acho que não estava assim tão acordada como pensava.

Piloto, forma masculina, continua a ser o termo mais usado para designar a actividade da Elisabete Jacinto. Não lhe faz confusão?

Há muito a fazer nestas matérias de mulheres e desporto que ultrapassam bastante as questões da linguagem. Contudo, com tantas alterações ortográficas que já foram feitas, algumas delas pouco razoáveis, não se tem a coragem de introduzir alguns termos no feminino que já vão fazendo muita falta nos tempos que correm. Ao ser designada como “piloto” é dada a mensagem de que estou a praticar a modalidade errada, o que não é o caso. Na realidade a linguagem permite perpetuar estereótipos de género e, desta forma, vamos continuar a afastar as mulheres desta modalidade pois é como se ela se destinasse apenas aos homens.

 

 

 

 

 

 

 

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