“Ema só adormecia de manhã, quando a aurora embranquecia as vidraças”

O escritor francês Gustave Flaubert narra-nos uma noite em claro de Madame Bovary, fantasiando uma vida que a afaste  do mundo real.  “Ema não dormia, simulava estar adormecida. E enquanto Carlos, a seu lado, pegava no sono, ela despertava para sonhos diferentes. Ao galope de quatro cavalos, era conduzida, durante oito dias de viagem, para um país desconhecido, de onde não voltariam mais. A viagem continuava, continuava, e eles de braços enlaçados, em silêncio. Às vezes, do alto de uma montanha avistavam de repente alguma cidade esplêndida, com zimbórios, pontes, navios, florestas de limoeiros e catedrais de mármore branco, cujos campanários em flecha escondiam ninhos de cegonhas. Caminhavam a passo por causa das grandes lajes, e por terra havia ramos de flores que lhes eram oferecidos por mulheres vestidas com corpetes vermelhos. Ouvia-se o som dos sinos, os relinchos das mulas, juntamente com o murmúrio das violas e o rumor das fontes, cujo vapor ao evolar-se ia refrescar montanhas de frutos, dispostos em pirâmides junto de estátuas pálidas que sorriam sob os repuxos. E uma noite, já tarde, chegavam a uma aldeia de pescadores, onde redes escuras secavam ao vento, ao longo das arribas e das choupanas. E era ali que ficariam a viver: habitariam uma casa baixa de telhado raso, à sombra de palmeiras, no fundo de um golfo, à beira-mar. Dariam passeios de gôndola e balouçar-se-iam em redes: e levariam uma existência fácil e cómoda como os seus vestuários de seda, tépida e estrelada como as noites suaves que contemplariam. Entretanto, na imensidade desse futuro que ela fazia surgir, nada acontecia de particular; os dias, sempre magníficos, parecer-se-iam como uma onda a outra; e suceder-se-iam no horizonte infinito, harmonioso, azulado e coberto de Sol. Mas a criança punha-se a tossir no berço, ou Bovary ressonava mais alto, e Ema só adormecia de manhã, quando a aurora embranquecia as vidraças e já o pequeno Justino, na praça, abria os taipais da botica”.

in Gustave Flaubert, Madame Bovary

 

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