“Esperando o mastro do candeeiro da mesa de cabeceira coberto dos moluscos marinhos do sono”

O escritor António Lobo Antunes escreve sobre o torpor do sono nas madrugadas, num dos seus primeiros livros, o “Auto dos Danados”.

“À noite, perto da madrugada, quando sentimos que a cor das persianas vai mudar sem ter mudado ainda, que as roupas e os móveis e as rachas das paredes emergirão do escuro nos estremeços dos navios afundados que que regressam à tona, esperando o mastro do candeeiro da mesa de cabeceira coberto dos moluscos marinhos do sono, quando o meu corpo, pendurado no teu como os mandris pequenos da barriga das mães, principia a gatinhar em busca do amendoim de um cigarro, quando tudo, por fim, se alterou já sem que nada se alterasse, aguardando o limão  de sol pousado na bandeja dos telhados, não te acontece escutar, aqui na estrela, no espaço branco da manhã que se maquilha devagar de cores, não  os ruídos domésticos do prédio, não os pombos e as árvores do jardim, não o chiar dos eléctricos nas calhas da rua, não  as nossas bronquites onde o tabaco borbulha, mas, inlocalizável, para além das paredes, chegado da infinita distância de não sei quantos álbuns de retratos, um comboio de lata que circula por entre os sapatos  sob a cama ou indo e vindo na sala entre o gira-discos avariado e o rádio de pilhas, com o meu pai, de corneta ao pescoço, a brandir da janela as bandeiras ridículas”

in António Lobo Antunes, Auto dos Danados, Dom Quixote, Lisboa 2005 (18ª edição)

 

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