“Espero não o ter acordado. Caminhei o mais silenciosamente que pude”

Knut Hamsun, norueguês, Prémio Nobel da Literatura, descreve a noite de insónia de uma das suas personagens, que é também uma história de amor.

“Durante a noite ouvi Esopo levantar-se do seu canto e rosnar, ouvi-o no meio do meu sono, mas nesse instante sonhava que caçava e por isso o seu rosnido encaixou no sonho e não foi suficiente para me acordar. Quando saí da cabana na manhã seguinte, a erva apresentava o rasto de um par de pés humanos: tinha estado ali alguém e tinha-se dirigido primeiro para junto de uma das minhas janelas e depois para a outra. O rasto perdia-se novamente mais adiante no caminho.

Ela veio ter comigo com as faces afogueadas e o rosto  absolutamente radiante.

Esteve à espera? – inquiriu. – Estava com medo de o ter feito esperar.

Não tinha estado à espera, ela estava no caminho, à minha frente.

— Dormiu bem? – perguntei eu. Mal sabia o que dizer.

— Não, de todo. Fiquei acordada – respondeu ela.

Disse-me que não tinha dormido naquela noite, que permanecera sentada numa cadeira com os olhos fechados e que tinha saído de casa para dar um pequeno passeio.

— Alguém esteve aqui na minha cabana na noite passada – disse eu – Descobri o rasto na erva, esta manhã.

O rosto dela corou, pegou na minha mão ali mesmo, na entrada, e não me respondeu. Olhei para ela e perguntei:

— Foi você que aqui esteve?

— Sim – respondeu ela encostando-se a mim. – Fui eu. Espero não o ter acordado. Caminhei o mais silenciosamente que pude. Sim, fui eu. Vim até ao pé de si, outra vez. Gosto muito de si!”

in Pan, Knut Hamsun, Cavalo de Ferro, Lisboa, 2010

 

 

 

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