Gógol: quatro horas de pensamento inquieto

Gogol

“Só Tchítchikov não conseguia adormecer. O seu pensamento inquieto estava bem acordado. Reflectia na maneira de se tornar proprietário de uma herdade real, e não de uma fantasia. Depois da conversa de Kostanjoglo tudo se tornara muito claro. Era tão palpável a possibilidade de enriquecer! A tarefa difícil de gerir uma propriedade tornara-se agora tão fácil e compreensível, e também tão adequada ao carácter de Tchítchikov ! Só lhe faltava meter no montepio essas almas mortas e depois arranjar essa tal propriedade não fantástica! Já se via a agir, a administrar como o Kostanjoglo lhe ensinara: com animação, com prudência, sem introduzir qualquer novidade sem primeiro conhecer bem o que já dera provas; já se via a estudar com os seus próprios olhos todos os seus mujiques, a aprender a conhecê-los, a afastar de si todos os exageros, a entregar-se apenas ao trabalho e à propriedade. Como que já sentia o prazer que tiraria quando uma ordem impecável se instaurasse e todas as molas da máquina económica funcionassem agilmente, empurrando-se umas às outras. O trabalho ferverá e à semelhança da farinha em que o cereal se transforma no moinho, qualquer lixo e resíduo se transformará em lucro puro. O maravilhoso proprietário não lhe saía de diante dos olhos. Era o primeiro homem em toda a Rússia  por quem sentia respeito pessoal. Antes dele apenas respeitava as pessoas pelas  altas graduações, pelos seus altos cargos e pelos seus altos rendimentos. Pelo intelecto ainda nunca respeitara ninguém. Kostanjoglo era o primeiro. Tchítchikov compreendeu também que, com este, era inútil pôr-se com truques. Um projecto o atraía: comprar a propriedade de Khlobúev. Tinha dez mil rublos, pensava pedir a  Kostanjoglo mais quinze mil, tendo em conta que este já mostrara a sua disponibilidade em ajudar quem quer que desejasse enriquecer; quanto ao restante… logo veria: ou empenhava as almas no montepio ou, simplesmente, o outro que esperasse. Também isso era possível: que corresse depois nos tribunais quando lhe apetecesse. Durante muito tempo ainda, pensou em tudo isto. Por fim, o sono, que havia mais de quatro horas já tinha toda a casa, como quem diz, apertada nos seus braços, apertou também Tchítchikov. Adormeceu profundamente”.

In Almas Mortas, Nikolai Gogol, Almas Mortas, 2002, Assírio e Alvim