“Há uma crença errada de que temos de dormir tudo seguido”

Teresa Paiva deu uma longa entrevista à jornalista Isabel Lucas, no jornal “Publico”,  onde falou do sono em diferentes vertentes e da complexidade de muitas perturbações do sono, como as insónias.

O iSleep publica alguns trechos da entrevista:

“Sabe-se que a falta de sono tem imensos custos económicos, pelos lapsos directos, de diminuição do desempenho, de maior tempo na execução de tarefas, decisões erradas. Tem também custos económicos pelas consequências na saúde. As pessoas têm maior propensão para estar de baixa.

E podem estar ou não. Há o absentismo — quando estão de baixa — e o presentismo — quando a pessoa está presente, mas não está activa; está zombie. O presentismo é um problema que está a assumir uma dimensão importante. Outra coisa importante é que as doenças associadas à falta de dormir — Alzheimer, cancro, diabetes, insónia, depressão, riscos cardiovasculares, enfartes, AVC, acidentes de todo o tipo — provocam o aumento da mortalidade em pessoas em idade activa”.

(…)

“Na Idade Média trabalhava-se de sol a sol, e quando vem a Revolução Industrial deixa-se de trabalhar de sol a sol, mas continua-se a trabalhar muito. Por isso vem a história das oito horas: oito horas para dormir, oito horas para trabalhar e oito horas para fazer o que se quer. Agora estamos com hábitos do tempo da agricultura: sempre disponíveis para trabalhar, só que em constante stress, um agricultor não estava em constante stress. Criou-se a ideia de que uma pessoa tem de estar sempre disponível, sempre on, sempre online, sempre activa, e, se não está, sente culpa”.

(…)

“Não precisamos de dormir todos os dias oito horas, outra convicção erradíssima. Ouvimos muitas vezes: “Se não durmo oito horas, não fico bem.” Quer dizer… somos seres feitos para viver e sobreviver na natureza e, se acontecer qualquer coisa — a natureza é improvável —, temos de estar acordados. O nosso corpo está feito para isso, é adaptável. Temos uma enorme adaptabilidade, que é evidente. Há pessoas que vivem a não sei quantos mil metros de altitude, outras ao nível do mar, umas no Pólo Norte e outras no Equador. Isto torna evidente a adaptabilidade da espécie humana.
Portanto, cada um dorme aquilo de que precisa, e a maior parte das pessoas precisa de sete ou oito horas, outras de nove e outras de um bocadinho menos. E o sono varia de noite para noite. Não temos todas as noites um sono igual, nem os nossos dias são todos iguais. Outra crença errada é a de que temos de dormir tudo seguido. O homem paleolítico tinha de estar sempre alerta, vivia nas cavernas e tinha de dormir como os gatos ou os cães, acordava várias vezes, porque, se não acordasse, era morto ou comido. Um bebé recém-nascido ainda tem o chamado “sono polifásico”. Só passámos a ter um sono bifásico quando nos tornámos agricultores. Com a agricultura era possível ter um sono que existia à noite e no período da sesta. Com a dita Revolução Industrial e com a iluminação das ruas, passámos a ter um sono monofásico. Isto é muito recente, século XVIII, XIX. Outra coisa: antigamente havia o que se chamava “primeiro sono” e “segundo sono”. Há citações disso em muitas obras literárias: “Vou dormir o primeiro sono.” As pessoas tinham um intervalo que era variável entre o primeiro e o segundo sono, e, no total, ocupavam mais tempo com o sono. Mas não é preciso dormir seguido. É outro mito. E outro mito ainda é o de que não podemos acordar durante o sono. Ora, se não acordássemos, já tínhamos sido comidos por um leão, um tigre, um bicho qualquer há muitos, muitos anos. Agora, mesmo sem leões, continuamos a ter hábitos que garantem a nossa sobrevivência. Se houver um fogo, uma inundação, uma catástrofe, é evidente que acordamos. O corpo está feito para isso, para acordar e ficar activo. Depois, muita gente convence-se que só dorme com remédios. Estas são talvez as crenças mais erradas. Há outra: as pessoas que fazem tudo para dormir bem e quanto mais fazem menos dormem”.

(…)

“A insónia considera-se crónica quando ocorre mais de três vezes por semana e dura mais de três meses. E tem várias formas: sono não reparador, dificuldade em adormecer, os tais acordar a meio da noite ou acordar cedo de mais. E pode estar ligada a muitas coisas. Há muitos subtipos de insónias. Alguém disse que não há duas insónias iguais. É verdade, o tratamento tem de ser personalizado. Chega muita gente que diz: “Ah, eu durmo mal, o que acha que tome?” É muito mais complicado do que o comprimido. Tem de se ver a história pessoal, familiar, profissional. Como foi o passado, como é o presente, quais os hábitos e a história do sono. Actualmente, só faço as perguntas do sono no fim da entrevista. E há um erro clássico: se for a um médico dizer que dorme mal, a probabilidade de ele lhe dar uma coisa para dormir é grande. Tratar problemas de sono é relativamente fácil; tratar uma insónia é muito complicado”.

“Somos animais altamente adaptados ao planeta Terra e temos nos nossos olhos umas células particularmente sensíveis ao espectro azul da luz. E o espectro do azul da luz é o azul do amanhecer. A luz do princípio da manhã é carregada do espectro do azul, e a do fim do dia, do espectro do vermelho. Estamos feitos para apanhar a luz azul de manhã, isso estimula-nos e põe-nos acordados. A luz do entardecer dá-nos calma e tranquilidade para dormir. É o acordar e estimular a vigília e a tranquilidade para ir dormir. O que acontece agora é que com os LED [díodos emissores de luz] e os computadores estamos a apanhar luz azul à hora do nascer do sol e, depois disso, à noite. Não dormimos”.

Pode ler a entrevista na íntegra no seguinte endereço electrónico:

https://www.publico.pt/2017/08/17/sociedade/noticia/o-sono-pode-ficar-definitivamente-escangalhado-1782531

Partilhar: