“O inimigo é invisível, o inimigo é microscópico!”

Teresa Paiva escreve um artigo sobre o actual momento que se vive no país e no mundo por causa da crise Covid-19: Ontem o Presidente da República decretou o estado de emergência, aprovado de seguida pelo governo e pela Assembleia da República.

Foi bom ouvir o discurso de Marcelo, é bom tê-lo como Presidente, e, nestas alturas difíceis, particularmente bom. Ele sabe falar, sabe o que diz, e é simultaneamente sensível e erudito. Um bom Presidente! Um bom discurso!

Imaginem-se com um qualquer Trump como Presidente. Que angústia!

O governo vai operacionalizar o estado de emergência. O governo também ele a agir adequadamente e bem. Hoje vamos saber em concreto os detalhes, mas desde já, deixo em termos de cidadã, o reconhecimento e agradecimento ao que têm feito.

Esqueçam os “treinadores de bancada” que sem fazer nada, fariam sempre melhor.

Mas todos falam em GUERRA e é, efectivamente, uma guerra, mas uma guerra sui-generis.

Não há bombas nem prédios a cair, não há pessoas a morrer em catadupa, não há fome nem falta de comida, não há risco nem de bomba atómica nem de guerra química. Temos remédios, médicos, e serviços ao dispor. Temos televisão, rádio e internet. Temos quase tudo dentro das nossas casas.

Por isso a guerra sui-generis é difícil de entender. O inimigo é invisível! O inimigo é microscópico! Nem toda a gente morre, morrem mais os velhos, muitos curam-se, muitos ficam assintomáticos…

Com tudo isto a guerra fria ao vírus, o isolamento social, parece, para alguns, despropositada: É uma violência ter os filhos, pequenos ou adolescentes fechados em casas, vai ser um descalabro económico, vai haver muita depressão e muitos problemas mentais, etc…

Os vários países com grande sucesso na resolução / controlo da infeção por Covid 19, Macau, Taiwan, Coreia do Sul, apesar de fazerem coisas um pouco diferentes, investiram todas no controlo da propagação da infeção e no isolamento social.

A Prof Carla Nunes, Directora da Escola Nacional de Saúde Pública, reconhece que as curvas de crescimento são semelhantes em vários países, mas acrescenta: “Isso é o que me assusta. Nós estamos no mesmo caminho que eles estão”, mas Portugal pode afastar-se destas “previsões assustadoras”: “A evidência diz-nos que baixando a taxa de contacto, baixamos a taxa de transmissão”.

E é por isto, por esta evidência, que temos, apesar de todas as incertezas e consequências negativas, de recorrer ao isolamento social.

Vejamos noutra perspectiva o que há de bom.

– Muitos estão a aprender que tudo se pode fazer mais devagar, e que, é até assim que se faz melhor

– Muitos estão a por em dia, tudo o que as azáfamas alucinantes, iam pondo para trás

– Para muitos o contacto mais próximo e confinado ao lar, acabou com afastamentos e zangas

– Outros sentem o valor de tudo quanto não têm agora, e percebem finalmente a grande riqueza das suas vidas quotidianas

– Para outros o afastamento mostra quão próximos estão e quanto seria trágica uma fatalidade no seio dos que se amam

– A poluição diminuiu enormemente. Há golfinhos nos canais de Veneza e esperemos que alguns entrem no Tejo

– A Primavera está aí, com os campos cheios de flores bravias e as árvores floridas a embelezar-se  a si próprias, enchendo de beleza os nossos olhos e de alegria os pássaros que, em cada dia, chilreiam nas ruas e jardins.

Por tudo isto e muito mais desejo as todos que se reencontrem nesta época de reflexão e recato, e transformem os inconvenientes em oportunidades. Bem hajam!