A insónia de Scott Fitzgerald

Scott Fitzgerald 1

O escritor norte-americano F. Scott Fitzgerald, conta no seu caderno de memórias várias insónias que teve.

“Da meia-noite às duas e meia, reina a paz no quarto. A seguir, desperto de súbito, incomodado por uma dor ou qualquer coisa que não funciona bem no meu corpo, ou ainda por um sonho demasiado vivo, por uma descida de temperatura no quarto que arrefeceu. Reinstalo-me rapidamente como deve ser, na vã esperança de poder salvar a continuidade do sono – mas não: o que faz com que, suspirando,  acenda a luz, engula uma pequena pílula de luminal e torne a abrir o livro. A verdadeira noite, a hora mais obscura, começou. Estou demasiado cansado para ler, mas posso beber um copo – o que fará com que me sinta mal amanhã de manhã; prefiro, então, levantar-me e andar de um lado para o outro. Vou do quarto, passando pelo átrio, até ao escritório, e refaço depois o trajecto inverso – e saio, se for Verão, pela porta das traseiras. Baltimore está afogado em neblina; não consigo distinguir uma só das suas torres. Volto de novo ao escritório, onde uma montanha de papéis por tratar me atrai a atenção: cartas, provas, apontamentos, etc. Aproximo-me da papelada, mas … Não! Seria fatal ir mais longe. Eis que o luminal começa a fazer efeito, e resolvo deitar-me outra vez – desta feita dobrando a almofada por debaixo da cabeça.”

In F. Scott Fitzgerald, The Crack-Up e Outros Escritos, editora Relógio D’Água, Lisboa 2011

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