Insónia

O poeta Nuno Júdice é autor deste poema em que “o vento entra na casa que esteve vazia e acorda os ruídos da noite para nos obrigar a acender as luzes”.

 

Quando o vento faz bater as portas, à

noite, e insiste sem que nada o possa

deter, é como se um mensageiro nos

esperasse, para o deixarmos entrar,

e acender as luzes da sala unde um lugar

o espera, há muito, para que repouse,

e nos leia com a voz rouca da viagem

a carta que se extraviou, num recanto

da memória, e agora traz de volta o

passado, como se tivesse sido ontem

que alguém nos escreveu, e a vida

pudesse mudar com as suas palavras.

 

“Por que me trazes notícias

dos mortos?”, pergunto ao mensageiro;

e ele empalidece, como se a carta

lhe tivesse sido entregue ainda ontem,

e ele próprio não fosse uma dessas sombras

que batem à porta, quando o vento entra

na casa que esteve vazia, e acorda os

ruídos da noite para nos obrigar a

acender as luzes, ir até à sala, e

descobrir que o lugar que estava vazio

há muito, afinal está ocupado pelo

mensageiro, e só temos de ouvir a sua voz

para descobrir que o tempo não passa,

à noite, quando o vento faz bater as portas.

 

In Nuno Júdice, A matéria do poema, Dom Quixote, Lisboa, 2008

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