“Quando a manhã já ia longe, os roncos iam perdendo a sua sonância”

O islandês Halldór  Laxness, Prémio Nobel da Literatura escreve sobre o ressonar de uma das suas personagens: “de todos os sinais temporizadores da manhã o mais fiável era o ressonar do seu pai. Ao princípio da manhã, logo que o menino acordava, estava ele ainda a ressonar, com longos, longos, fundos, fundos roncos. Esse espécime na realidade não pertencia às manhãs, mas à própria noite. Aqueles roncos não tinham qualquer relação com o mundo em que vivemos e no qual estamos acordados, eram uma viagem alienígena por espaços inclinados, tempo incomensurável , existências diferentes, até as carruagens dessas paragens não têm nada em comum com as carruagens deste mundo, e muito menos tem a paisagem da vida ressonante algo de semelhante com a paisagem de hoje.

Mas quando a manhã já ia longe, os roncos iam perdendo a sua sonância, os seus cantantes tons peitorais fragmentavam-se, iam subindo pouco a pouco até à garganta, da garganta até ao nariz e à boca, mesmo até aos lábios, como um sopro, às vezes só com um assobio compulsivo, em breve a viagem chegava ao fim, e os cavalos relinchavam de alegria por terem atravessado intactos e sadios a ressonante vastidão longínqua do inexplorado. A terra mãe estava à vista.”

In Gente Independente, Halldór  Laxness, editora Cavalo de Ferro