“Não consigo dormir, e ele respondeu, eu também não”

Valter Hugo Mãe envolve duas personagens do seu livro “A Máquina de fazer espanhóis” numa mancha de pássaros negros e uma noite de insónia.

“nessa noite, assim que apaguei  a luz e aconcheguei os lençóis ao pescoço, o quarto encheu-se de pássaros negros que conversavam entre si. vieram imediatamente sobrevoar-me, como se já ali estivessem e necessitassem apenas da escuridão para serem vistos. acendi de novo o meu candeeiro e o quarto pôs-se branco, o branco de sempre, a mariazinha na ingenuidade a que fora condenada, a roupa na cadeira, um silêncio profundo, e assim voltei à escuridão. o corpo semi-erguido para melhor ver o que sucederia, o cotovelo fincado no chão e os pássaros novamente voando por ali, rasando o meu rosto, em conversas de um português esganiçado que eu não podia acompanhar. sentei-me na cama, em plena escuridão e confusão, sentei-me na cama, os cobertores a protegerem-me como podiam, pasmando diante do absurdo daquela companhia. nos meus joelhos, às vezes nos pés, podiam pousar os pássaros por um segundo, irrequietos e aparentemente nada importados comigo. as portadas estavam abertas, entrava um lúgubre luar, levantei-me, corajosamente abri a porta do meu quarto e percebi que os pássaros se juntaram sobre mim. saí ao corredor e o barulho tornou-se ensurdecedor ecoando no vão do edifício como se fossem mil vezes mais bichos em meu redor. segui até ao quarto dezasseis, abri a porta e assim ficou aberta, sentei-me na cama e observei o senhor pereira. a passarada entrara e fazia no seu quarto o mesmo desespero que no meu. o senhor pereira sentiu o meu corpo pesando no seu colchão e abriu os olhos. perguntou, é você, senhor silva, e eu disse, sou, não consigo dormir, e ele respondeu, eu também não”.

Valter Hugo Mãe, A Máquina de fazer espanhóis, Porto Editora, Lisboa 2016

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